Lars Ulrich ocupa um lugar singular na história do heavy metal. Ao longo de décadas à frente do Metallica, o baterista não apenas ajudou a redefinir o peso do gênero, mas também se tornou um de seus porta-vozes mais entusiasmados. Sua técnica por trás do kit pode dividir opiniões entre fãs mais rigorosos, mas sua devoção ao metal sempre foi inquestionável — algo que ficou evidente em momentos como o discurso fervoroso na entrada do Deep Purple no Rock and Roll Hall of Fame. Ainda assim, quando o assunto é a essência do estilo, Ulrich não hesita em apontar um nome acima de todos os outros.
A relação do músico com o heavy metal começou cedo, quando ele deixou a Dinamarca e se mudou para a Califórnia, numa fase em que ainda moldava seu gosto musical. O choque cultural foi imediato. Enquanto mergulhava na cena americana, Ulrich também descobria a avalanche sonora que vinha do Reino Unido. Bandas da New Wave of British Heavy Metal, como Saxon e Diamond Head, tornaram-se referências fundamentais e ajudaram a direcionar o caminho que ele seguiria dali em diante.
Determinando-se a montar sua própria banda, Ulrich começou a procurar músicos que compartilhassem o mesmo entusiasmo pelo som pesado — busca que acabaria levando ao encontro decisivo com James Hetfield. Dessa parceria surgiria o Metallica. Na virada dos anos 1970 para os 80, o heavy metal ainda estava em processo de definição, tentando encontrar uma identidade própria enquanto absorvia influências do hard rock, do blues elétrico e da energia crescente do punk.
Antes disso, o terreno já vinha sendo preparado. O boom do blues britânico incentivou diversas bandas a buscar volumes mais altos e atmosferas mais densas. Grupos como Led Zeppelin expandiram os limites do rock com riffs pesados e presença sonora marcante, enquanto nomes como Blue Cheer e MC5 exploravam caminhos mais agressivos e psicodélicos. Mas seria em Birmingham que o gênero encontraria sua forma mais sombria e definitiva.

Com inspiração que misturava filmes de terror, blues distorcido e uma visão mais obscura do mundo, o Black Sabbath apresentou um novo vocabulário musical. Os riffs de Tony Iommi, cortantes e repetitivos, aliados à voz intensa de Ozzy Osbourne, estabeleceram uma estética que mudaria o rumo do rock pesado. Mesmo tendo passado anos mergulhado na discografia do Judas Priest, Ulrich sempre deixou claro que, para ele, ninguém traduz o heavy metal de maneira tão direta quanto o Sabbath.
Durante a cerimônia de introdução da banda ao Rock and Roll Hall of Fame, o baterista resumiu essa admiração em palavras que ficaram marcadas. Segundo ele, Black Sabbath é praticamente sinônimo do termo heavy metal — uma influência tão dominante que o gênero inteiro poderia ser descrito como música derivada daquilo que o quarteto criou no início dos anos 1970.
A própria trajetória do Metallica reforça essa conexão. Embora a banda tenha acelerado os tempos e incorporado a agressividade do punk ao thrash metal, muitos de seus riffs carregam a herança direta do trabalho de Iommi. Em faixas como “For Whom the Bell Tolls”, o peso das guitarras ecoa ideias que remetem a composições clássicas do Sabbath, como “Fairies Wear Boots”. Para Ulrich, qualquer grupo que ignore essa base histórica corre o risco de perder a essência do estilo.
Quando questionado pela Rolling Stone sobre seus discos favoritos do Black Sabbath, o baterista surpreendeu ao não escolher os álbuns mais óbvios. Em vez de “Paranoid” ou “Master of Reality”, ele destacou “Sabotage” como o ponto alto da banda. Para Ulrich, a sequência inicial com “Hole in the Sky” e “Symptom of the Universe” funciona como um golpe direto, enquanto “Megalomania” representa uma jornada intensa dentro do universo do metal. Ele chegou a afirmar que o lado A do vinil reúne alguns dos minutos mais fortes já gravados pelo grupo.
Ulrich também relembrou que seu primeiro contato com o Sabbath aconteceu através de “Sabbath Bloody Sabbath”, recebido como presente de Natal em 1973. A atmosfera pesada e quase inquietante do disco causou um impacto imediato, especialmente a faixa-título, que ele descreveu como algo “assustador” em sua intensidade. Embora admire a simplicidade dos primeiros trabalhos da banda, o baterista acredita que “Sabotage” representa o ápice sonoro — um álbum que, em sua visão, consolidou as bases do hard rock e do metal que dominariam as décadas seguintes.



