Dave Grohl é uma dessas figuras raras do rock contemporâneo que nunca perderam o contato com a chama original que os levou à música. Conhecido mundialmente por liderar o Foo Fighters e por ter integrado o Nirvana em um de seus momentos mais decisivos, Grohl sempre fez questão de celebrar as influências que moldaram sua formação. Seu repertório afetivo é amplo: vai da new wave dos B-52’s ao rock progressivo e expansivo do Rush. Ainda assim, é no território do punk e do heavy metal que ele parece se sentir mais em casa.
À primeira vista, punk e metal ocupam extremos opostos do espectro do rock. O metal costuma privilegiar estruturas mais longas, riffs elaborados, domínio técnico e uma atmosfera sombria, enquanto o punk aposta na urgência, na simplicidade e na ética do “faça você mesmo”, muitas vezes colocando a atitude acima da precisão. Grohl, porém, sempre enxergou além dessas diferenças aparentes. Para ele, há uma energia comum, uma agressividade compartilhada que aproxima os dois estilos mais do que os separa.
Com raízes profundamente fincadas no punk e tendo alcançado projeção na cena grunge — frequentemente entendida como uma continuação direta da revolução punk dos anos 1970 —, Grohl nunca escondeu sua proximidade com o metal. Mesmo nos discos dos Foo Fighters, banda associada ao rock alternativo, surgem riffs pesados, dinâmicas explosivas e uma inclinação clara para climas mais densos. Essa conexão vem de longe. Ainda jovem, ele se viu atraído pelos sons mais agressivos do metal, um fascínio que ajudaria a definir sua linguagem musical.
O metal, afinal, é um universo vasto e cheio de ramificações. O hard rock e o proto-metal dos anos 1970 têm pouco a ver, à primeira escuta, com o nu-metal americano ou o death metal escandinavo. Ainda assim, Grohl demonstra interesse por diferentes fases do gênero, embora deixe claro seu apreço especial pelo metal mais antigo. Entre suas bandas favoritas de todos os tempos está o Led Zeppelin, grupo que, ao lado de outros nomes fundamentais, ajudou a pavimentar o caminho para o que viria a ser o heavy metal.

Mas qualquer discussão séria sobre as origens do metal passa inevitavelmente pelo Black Sabbath. A banda de Birmingham, liderada por Ozzy Osbourne, é frequentemente apontada como o ponto de partida do gênero — não apenas pela estética sombria, mas pela linguagem musical que introduziu. Não surpreende, portanto, que o Sabbath figure entre os grandes favoritos de Dave Grohl. Em uma entrevista concedida à Q Magazine em 2004 (via Far Out), ele listou algumas de suas músicas de metal preferidas, incluindo faixas emblemáticas do grupo.
Entre elas, Grohl destacou “Symptom of the Universe”, lançada em 1975. Para ele, a canção contém “um dos primeiros riffs rápidos de heavy metal”. E foi além: “Todos reconheceriam aquele riff se você o tocasse em qualquer setlist, em qualquer lugar do mundo. Não escuto tanto Sabbath hoje em dia, mas quando você ouve isso, percebe que este é o pântano de onde muito metal rastejou”.
A imagem é precisa. “Symptom of the Universe” não representa apenas um momento inaugural, mas a abertura de um novo vocabulário sonoro. O riff avança com velocidade, peso e intenção, como se estivesse constantemente tentando ultrapassar os limites do seu próprio tempo. A partir dali, é possível desenhar linhagens inteiras do metal: a aceleração, a fisicalidade do som, a sensação de que intensidade pode ser quase palpável. E, ainda assim, há fluidez. O Sabbath nunca soou mecânico. Havia humanidade naquele peso.

É exatamente esse equilíbrio que sempre atraiu Grohl. Seja como baterista ou guitarrista, seu trabalho mais marcante vive na tensão entre controle e caos, entre estrutura e explosão. O Black Sabbath provou que era possível soar primitivo sem ser raso. Grohl, ao longo de sua carreira, mostrou o outro lado da equação: que a simplicidade pode ser poderosa sem jamais parecer pequena.
Como grande parte do material clássico do Sabbath, “Symptom of the Universe” atravessou as décadas com notável vitalidade. A música segue como referência direta para gerações de guitarristas e bandas de metal ao redor do mundo. E não é difícil identificar ecos daquele riff em diversas composições dos Foo Fighters, como se Grohl, consciente ou não, continuasse dialogando com o mesmo “pântano” criativo que o encantou na juventude.



