A desilusão de Paul McCartney com “Back to the Egg”

Luis Fernando Brod
4 minutos de leitura
Paul McCartney & Wings - Capa de Back to the Egg.

Nem sempre a crítica mais dura vem da imprensa ou do público. Muitas vezes, ela nasce do próprio artista. A autocrítica, quase sempre impiedosa, faz parte do processo criativo — e nem Paul McCartney escapou disso. Ao longo de sua trajetória, sobretudo no período pós-Beatles, ele conviveu com dúvidas profundas sobre o próprio trabalho.

Nos anos finais dos Fab Four, McCartney era quem frequentemente puxava a banda para o estúdio, mas havia ali uma espécie de colchão coletivo. Qualquer tropeço era diluído entre quatro personalidades fortes. Já na carreira solo, essa proteção desapareceu. O peso das decisões, dos acertos e dos erros passou a ser exclusivamente seu.

Mesmo nos Wings, a lógica se manteve. Embora fosse uma banda, o nome McCartney falava mais alto, concentrando elogios e críticas. Ao longo de cinco décadas, ele viveu sob a pressão constante de criar algo que pudesse, de alguma forma, dialogar com o nível de excelência que ajudou a estabelecer nos Beatles. Discos como “Ram” levaram tempo para serem reavaliados e ganhar status cult. Outros, porém, ficaram marcados pelo rótulo incômodo da mediocridade — um julgamento que, no caso de McCartney, sempre pareceu mais severo do que seria com qualquer outro artista. E não raramente, essa cobrança vinha dele mesmo.

É nesse contexto que surge “Back to the Egg“, lançado em 1979 e último álbum dos Wings. O disco nunca foi exatamente um desastre, mas tampouco empolgou. Recebido com frieza na época, soava como o trabalho de um artista visivelmente cansado após anos no centro da indústria musical. A inspiração não estava em seu ponto mais alto, e nem mesmo boas execuções instrumentais conseguiram disfarçar isso.

O próprio McCartney reconhecia o problema ainda durante a produção. Em entrevista à Guitar World, em 1997, resgatada pela Far Out, foi direto: “Linda e eu ficamos tão desapontados, pensando: ‘Meu Deus, esse disco é terrível’”. A percepção não era isolada. Em 1979, boa parte da crítica apontava a falta de brilho e inovação, atributos tradicionalmente associados ao ex-Beatle. A régua estava alta demais — e “Back to the Egg” parecia não alcançá-la.

Com o passar do tempo, no entanto, a visão de McCartney sobre o álbum mudou. A distância histórica ajudou a relativizar o julgamento. “Meu filho colocou o disco outro dia e, sinceramente, ele não é tão ruim quanto eu lembrava”, admitiu. O olhar de uma nova geração ajudou a suavizar a dureza da autocrítica.

McCartney também passou a refletir sobre as causas dessa insatisfação. “Nem sempre é fácil tornar o trabalho conciso e preciso, e acho que quando escorrego é mais nas letras”, explicou. Com franqueza rara, completou: “Odeio dizer isso, mas muitas vezes foi preguiça mesmo, quando pensei: ‘Ah, isso serve’. E, para ser justo, às vezes talvez eu estivesse certo”.

Essa honestidade expõe algo essencial: por trás do mito, há um artista humano, sujeito ao cansaço, à repetição e a decisões tomadas no piloto automático. Considerando uma carreira iniciada ainda nos clubes de Hamburgo e sustentada por décadas de produção intensa, talvez seja justo conceder algum espaço para esses momentos de menor rigor.

Back to the Egg” pode não ter sido o encerramento ideal dos Wings, algo à altura de um “Abbey Road“. Ainda assim, permanece acima da média de muitos discos que dominavam as paradas em 1979. Mais do que isso, funciona como um retrato honesto de um criador em movimento, lidando com suas próprias expectativas e aprendendo, com o tempo, a olhar para o passado com menos severidade.

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