A capa impossível dos Rolling Stones

Luis Fernando Brod
4 minutos de leitura
Rolling Stones. Crédito: Reprodução.

Houve um tempo em que o primeiro contato com um disco acontecia pelas mãos e pelos olhos, muito antes da agulha tocar o vinil. A arte da capa tinha o poder de despertar curiosidade ou rejeição instantânea. Os Rolling Stones sempre entenderam esse jogo e criaram imagens que atravessaram gerações — mas também enfrentaram um episódio em que uma ideia marcante acabou barrada antes mesmo de chegar às lojas.

Nos anos 1960, o mercado girava em torno dos singles que dominavam o rádio, como “(I Can’t Get No) Satisfaction”, verdadeiros choques rápidos de energia rock and roll. Perto do fim da década, porém, o cenário começou a mudar. A cultura hippie ampliou o interesse pelos LPs como experiências completas, e os Stones estavam no centro dessa transformação, especialmente com “Beggars Banquet”, lançado em 1968.

O disco marcou uma virada criativa. Depois da fase psicodélica de “Their Satanic Majesties”, a banda voltou a uma sonoridade mais crua e conectada ao clima social da época, refletido em músicas como “Street Fighting Man”. Um álbum com esse peso pedia uma apresentação visual à altura — e foi aí que começou a confusão.

Concluídas as gravações em julho de 1968, a banda apresentou uma proposta de capa ousada: a fotografia de uma parede de banheiro coberta de grafites. A imagem, registrada por Barry Feinstein, tinha sido encontrada por Mick Jagger, Keith Richards e Anita Pallenberg. Richards recordaria anos depois, em entrevista à Rolling Stone, que considerava a foto “realmente estilosa”. A Decca, gravadora do grupo desde 1963, discordou frontalmente. Para os executivos, a presença de um vaso sanitário tornava a arte inaceitável.

O impasse foi longo e desgastante. Segundo Richards, a resistência da gravadora atrasou o lançamento por meses, criando um clima de tensão crescente. “Batemos o pé”, relembrou o guitarrista, explicando que a disputa se arrastou por cerca de nove meses. A postura da Decca parecia inabalável — como se o sucesso comercial do disco não fosse suficiente para fazê-los recuar.

Com o tempo, a banda percebeu que insistir naquela batalha só prolongaria o atraso. A solução encontrada foi lançar o álbum com uma capa alternativa: um design branco e minimalista, com o nome da banda e o título escritos em caligrafia discreta. Assim, “Beggars Banquet” finalmente chegou às lojas em dezembro de 1968, sete meses depois de finalizado.

Rolling Stones – Beggars Banquet edição nacional. Crédito: Acervo Pessoal.

Mesmo sem a arte desejada, o disco teve ótimo desempenho comercial, alcançando o terceiro lugar nas paradas britânicas e entrando no top cinco nos Estados Unidos. Naquele momento, os Rolling Stones estavam em alta constante, e o público parecia disposto a acompanhar cada novo passo da banda.

Curiosamente, o tempo acabou suavizando as polêmicas que antes pareciam incontornáveis. Com a mudança de mentalidade e padrões visuais, as reedições posteriores passaram a adotar a capa original do banheiro grafitado — hoje vista como uma escolha muito mais alinhada ao espírito do álbum. Pouco depois desse episódio, os Stones encerrariam sua relação com a Decca, deixando para trás um capítulo que mostra como até uma simples imagem pode se transformar em um campo de batalha dentro da história do rock.

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