O tipo de guitarrista que Prince sempre quis imitar

Luis Fernando Brod
5 minutos de leitura
Prince. Crédito: Chris Christo/UPI/Boston Globe.

Durante os anos 1980, Prince tornou-se um dos artistas mais visíveis e discutidos da música pop. Depois do sucesso de 1999 e, sobretudo, de Purple Rain, sua presença ultrapassou o rádio: estava nas telas de cinema, na rotação intensa da MTV e, alguns anos depois, assinaria também a trilha de Batman. A construção estética era sofisticada, o controle da própria imagem, rigoroso. Mas, em meio ao espetáculo, um aspecto essencial muitas vezes era ofuscado: Prince era, antes de tudo, um músico de formação sólida e ambição técnica incomum.

No álbum de estreia, “For You” (1978), gravado quando tinha apenas 20 anos, ele foi creditado por tocar 27 instrumentos. Não era um detalhe promocional, mas parte de um método. Prince trabalhava de forma obsessiva, acumulando funções no estúdio para alcançar exatamente o som que imaginava. Ainda assim, havia um instrumento que ocupava posição central em sua identidade artística: a guitarra. Ela não era apenas elemento decorativo em sua performance; era ferramenta de composição, extensão melódica e veículo de expressão.

Desde cedo, a crítica buscou paralelos fáceis. O nome de Jimi Hendrix aparecia com frequência, sobretudo pela combinação entre virtuosismo, teatralidade e domínio do instrumento. Prince nunca desqualificou Hendrix. Pelo contrário, reconhecia sua singularidade e o papel decisivo que teve na transformação da guitarra no rock. Mas fazia questão de sublinhar que sua própria busca apontava para outra direção.

Nos anos 1990, ao conceder entrevistas mais francas, Prince passou a comentar com naturalidade suas influências. Criticava músicos que negavam ouvir contemporâneos ou predecessores. Para ele, essa postura soava artificial. Afirmava não ter problema algum em citar artistas que admirava — de D’Angelo a Björk, dos Cocteau Twins a nomes clássicos do rock e do soul. A música, dizia, é um campo de troca constante. A originalidade surge da assimilação, não da negação.

Ao falar sobre sua formação, Prince recordou as madrugadas ouvindo a rádio KQRS, em Minnesota. Foi ali que teve contato com repertórios variados e descobriu músicos que ampliaram seu horizonte estético. Entre eles estava Carlos Santana. E é nesse ponto que a narrativa sobre “influência” ganha contornos mais precisos. Prince afirmou que, se as pessoas escutassem atentamente seu trabalho, perceberiam mais ecos de Santana do que de Hendrix.

A diferença, para ele, era clara. Hendrix vinha do blues, da distorção crua, da ruptura elétrica da tradição. Santana, por sua vez, priorizava a melodia. Havia lirismo no fraseado, uma busca por linhas que “cantassem”. Quando Prince disse que Santana “tocava mais bonito”, não se tratava de comparação competitiva, mas de identificação estética. Ele se via mais próximo dessa abordagem em que técnica e sentimento caminham juntos.

Esse detalhe ajuda a compreender sua própria construção como guitarrista. Embora capaz de solos explosivos e performances intensas, Prince frequentemente organizava suas intervenções em torno de frases cantáveis, com desenvolvimento temático claro. Mesmo nos momentos mais expansivos, havia estrutura. A guitarra dialogava com o arranjo, não apenas o dominava. Essa escolha revela um músico atento à arquitetura da canção, não apenas à exibição instrumental.

Ao deslocar o eixo da comparação, Prince também reformulava a maneira como queria ser ouvido. Não buscava escapar das referências, mas qualificá-las. A influência, em seu caso, não operava como imitação direta, e sim como ponto de partida. Absorver Santana significava incorporar uma sensibilidade melódica; reconhecer Hendrix implicava entender os limites da comparação.

O resultado é um catálogo que atravessa funk, rock, pop e R&B sem se fixar em um único molde. A guitarra é parte dessa equação, mas nunca isolada do conjunto. Prince construiu uma identidade que dialoga com a tradição sem se submeter a ela. Ao admitir que tentou tocar como Santana na juventude, ele não diminuía sua própria estatura. Ao contrário, reforçava a ideia de que todo músico se forma a partir de escuta atenta e prática constante.

No fim, o tipo de guitarrista que Prince sempre quis imitar não era o mais barulhento ou o mais veloz, mas aquele capaz de transformar técnica em melodia e virtuosismo em emoção estruturada. Sua obra confirma que reverenciar não é copiar. É compreender profundamente, filtrar e, então, devolver ao mundo algo que carrega traços reconhecíveis, mas soa inconfundivelmente próprio.

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