L7 e Black Flag: quando o hardcore e o grunge se colidiram em Porto Alegre
Entrar no bar Opinião, templo de shows em Porto Alegre, no último dia 25 de outubro foi uma viagem no tempo.
Uma viagem turbulenta, diga-se de passagem: nessa data se encontram dois grandes nomes do punk ou de seus subgêneros hardcore e grunge, como preferirem chamar.
Apesar de serem da mesma região norte-americana, mais precisamente da Califórnia, elas fazem parte de cenas e locais totalmente díspares.
Punk em essência as duas bandas são, mas L7 com seu som lamacento se tornou as principais referências para o riot grrrl, um movimento punk rock que teve ainda bandas como 7 Year Bitch, Babes in Toyland, Bikini Kill e mais tarde Le Tigre e Pussy Riot.
Além disso, foram também pioneiras como bandas de mulheres dentro do grunge, mesmo elas não sendo de Seattle, mas sim de Los Angeles. Já o Black Flag foi pioneira no hardcore e são sem sombra de dúvidas mais agressivos.
Por essas e outras diferenças sonoras, a Abstratti Produtora acertou em cheio em colocar a banda L7 para abrir a noite.
Voltando ao piá que viajou no tempo, neste caso eu aos 13 anos, foi incrível e muito nostálgico ouvir o som do L7.
Esse show reativou em mim memórias de um Hollywood Rock passado em 1993 na TV, adicionadas de memórias mais recentes construídas através de reprises de TV, videocassete e mais atualmente pela internet.
É difícil não se emocionar com uma banda como o L7, não mais garotas, hoje mulheres maduras entregaram um show de alto nível e divertido para o público presente.
O setlist foi primoroso e não foi surpresa pra ninguém que a maioria das músicas vieram do seu terceiro álbum, “Bricks Are Heavy”, lançado em 1992, foi o responsável pela explosão mundial da banda, colocando elas inclusive no já falado histórico Hollywood Rock.
Deste álbum as músicas tocadas foram: “Everglade”, terceira música do set e que levantou a galera, seguida da densa e não menos gritada, “Scrap”, a mais arrastada e lenta “One More Thing”, seguida de “Slide” com uma levada bem punk. As músicas “Monster”, “Wargasm”, “Pretend We’re Dead” (tocada à exaustão em rádios e MTV quando lançada) se mostraram hino levando todos no local a cantar em coro seus refrãos. Ainda sobrou tempo para tocarem “Shitlist” do mesmo álbum.
Se essas músicas eram as mais festejadas na época, o tempo as consolidou e hoje estão eternizadas na cabeça de jovens da época.
Mas é claro que nem só de “Bricks Are Heavy” foi o show, houve espaço ainda para outras músicas, muitas delas cantadas e gritadas pela plateia como “Andres”, “Can I Run”, “Fuel My Fire” do quarto álbum do grupo, “Hungry for the Stink”.
Não poderia deixar de citar “Shove” e “Deathwish”, essa última abriu o show empolgando desde o princípio, ambas faixas do segundo disco, “Smell the Magic”, que teve outras duas que fecharam a noite: “American Society”, cover da banda punk dos anos 80 Eddie and the Subtitles. Foi nesse momento que as garotas mandaram um grande “Fuck Off” ao ícone conservador norte-americano Donald Trump, levando a galera ao delírio. E fecharam com a acelerada “Fast and Frightening”.
Dos outros álbuns ainda tiveram “Stadium West” e “Fighting the Crave”, do disco “Scatter the Rats”; “Human”, do disco “Slap-Happy”; e “Non-Existent Patricia” e “Bad Things”, do “The Beauty Process”.
Enfim, uma apresentação para lavar a alma e reconectar memórias e, claro, mostrar que elas continuam em forma apavorando no palco e provando mais uma vez que o rock precisa de mais mulheres!
Show do Black Flag
Ao contrário do L7, que veio com sua formação clássica (Donita Sparks, Suzi Gardner, Jennifer Finch e Demetra Plakas), o Black Flag chegou apenas com o lendário líder e fundador da banda, Greg Ginn.
Entraram literalmente com o pé na porta e a escolha deles como segunda banda, como falei antes, foi muito acertada.
Difícil seria para o L7 segurar a onda, pois realmente o Black Flag é agressivo demais no palco, mesmo tocando na íntegra o disco que é mais Black Sabbath da banda, o “My War”. Os caras estavam com sangue no olho.
Infelizmente não consegui assistir a um show da banda nos anos 80 lá nos Estados Unidos, mas pela insanidade e intensidade com que canta o vocalista e skatista profissional Mike Vallely, dá pra imaginar como eram os anos de Henry Rollins.
Aliás, se existe uma cena independente norte-americana, muito se deve ao Black Flag e principalmente a Greg Ginn.
O cara é fundador de um dos selos mais importantes de sua época, o SST. Por lá passaram nomes como “Dinosaur Jr”, “Hüsker Dü” e “Meat Puppets”, só para citar alguns.
Voltando ao show, foi uma pancadaria do início ao fim, hardcore na veia, alguns dos álbuns e EPs foram tocados na íntegra e na ordem em que aparecem nos discos.
O clássico álbum “My War”, por exemplo, foi tocado na primeira metade do set. Depois disso a banda fez uma pausa, afinal a entrega era grande, principalmente de Mike Vallely.
Na segunda metade, os caras vieram novamente com tudo e tocaram na íntegra o EP “Nervous Breakdown”, e parecia que iam fazer o mesmo com o EP “Jealous Again”, porém tocaram duas músicas na sequência, a faixa-título e “No Values”, e lá pro final do set tocaram “Revenge”.
A partir daí, começaram a intercalar mais as músicas de cada álbum e a cada momento o público delirava, formando o slam dance junto com stage dive.
Aí vieram faixas do “Damaged”, “I Can See”, “In My Head” e “Slip It In”, fechando com cover de Richard Berry, “Louie Louie”.
O único senão foi a expulsão de uma pessoa do público que subiu pra fazer um stage dive. Confesso que estava meio de lado quando isso ocorreu, mas vi Mike Vallely reclamando e pedindo pros seguranças mandarem o cara embora.
Indiferente dessa treta, foi uma noite histórica para o som alternativo em Porto Alegre.



