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L7 e Black Flag: quando o hardcore e o grunge se colidiram em Porto Alegre

5 min de leitura
L7 ao vivo no bar Opinião, em Porto Alegre
L7 ao vivo no bar Opinião, em Porto Alegre. Foto: Rafael Cony.

Entrar no bar Opinião, templo de shows em Porto Alegre, no último dia 25 de outubro foi uma viagem no tempo.

Uma viagem turbulenta, diga-se de passagem: nessa data se encontram dois grandes nomes do punk ou de seus subgêneros hardcore e grunge, como preferirem chamar.

Apesar de serem da mesma região norte-americana, mais precisamente da Califórnia, elas fazem parte de cenas e locais totalmente díspares.

Punk em essência as duas bandas são, mas L7 com seu som lamacento se tornou as principais referências para o riot grrrl, um movimento punk rock que teve ainda bandas como 7 Year Bitch, Babes in Toyland, Bikini Kill e mais tarde Le Tigre e Pussy Riot.

Além disso, foram também pioneiras como bandas de mulheres dentro do grunge, mesmo elas não sendo de Seattle, mas sim de Los Angeles. Já o Black Flag foi pioneira no hardcore e são sem sombra de dúvidas mais agressivos.

Por essas e outras diferenças sonoras, a Abstratti Produtora acertou em cheio em colocar a banda L7 para abrir a noite.

Voltando ao piá que viajou no tempo, neste caso eu aos 13 anos, foi incrível e muito nostálgico ouvir o som do L7.

Esse show reativou em mim memórias de um Hollywood Rock passado em 1993 na TV, adicionadas de memórias mais recentes construídas através de reprises de TV, videocassete e mais atualmente pela internet.

É difícil não se emocionar com uma banda como o L7, não mais garotas, hoje mulheres maduras entregaram um show de alto nível e divertido para o público presente.

O setlist foi primoroso e não foi surpresa pra ninguém que a maioria das músicas vieram do seu terceiro álbum, “Bricks Are Heavy”, lançado em 1992, foi o responsável pela explosão mundial da banda, colocando elas inclusive no já falado histórico Hollywood Rock.

Deste álbum as músicas tocadas foram: “Everglade”, terceira música do set e que levantou a galera, seguida da densa e não menos gritada, “Scrap”, a mais arrastada e lenta “One More Thing”, seguida de “Slide” com uma levada bem punk. As músicas “Monster”, “Wargasm”, “Pretend We’re Dead” (tocada à exaustão em rádios e MTV quando lançada) se mostraram hino levando todos no local a cantar em coro seus refrãos. Ainda sobrou tempo para tocarem “Shitlist” do mesmo álbum.

Se essas músicas eram as mais festejadas na época, o tempo as consolidou e hoje estão eternizadas na cabeça de jovens da época.

Mas é claro que nem só de “Bricks Are Heavy” foi o show, houve espaço ainda para outras músicas, muitas delas cantadas e gritadas pela plateia como “Andres”, “Can I Run”, “Fuel My Fire” do quarto álbum do grupo, “Hungry for the Stink”.

Não poderia deixar de citar “Shove” e “Deathwish”, essa última abriu o show empolgando desde o princípio, ambas faixas do segundo disco, “Smell the Magic”, que teve outras duas que fecharam a noite: “American Society”, cover da banda punk dos anos 80 Eddie and the Subtitles. Foi nesse momento que as garotas mandaram um grande “Fuck Off” ao ícone conservador norte-americano Donald Trump, levando a galera ao delírio. E fecharam com a acelerada “Fast and Frightening”.

Dos outros álbuns ainda tiveram “Stadium West” e “Fighting the Crave”, do disco “Scatter the Rats”; “Human”, do disco “Slap-Happy”; e “Non-Existent Patricia” e “Bad Things”, do “The Beauty Process”.

Enfim, uma apresentação para lavar a alma e reconectar memórias e, claro, mostrar que elas continuam em forma apavorando no palco e provando mais uma vez que o rock precisa de mais mulheres!

Show do Black Flag

Ao contrário do L7, que veio com sua formação clássica (Donita Sparks, Suzi Gardner, Jennifer Finch e Demetra Plakas), o Black Flag chegou apenas com o lendário líder e fundador da banda, Greg Ginn.

Entraram literalmente com o pé na porta e a escolha deles como segunda banda, como falei antes, foi muito acertada.

Difícil seria para o L7 segurar a onda, pois realmente o Black Flag é agressivo demais no palco, mesmo tocando na íntegra o disco que é mais Black Sabbath da banda, o “My War”. Os caras estavam com sangue no olho.

Infelizmente não consegui assistir a um show da banda nos anos 80 lá nos Estados Unidos, mas pela insanidade e intensidade com que canta o vocalista e skatista profissional Mike Vallely, dá pra imaginar como eram os anos de Henry Rollins.

Aliás, se existe uma cena independente norte-americana, muito se deve ao Black Flag e principalmente a Greg Ginn.

O cara é fundador de um dos selos mais importantes de sua época, o SST. Por lá passaram nomes como “Dinosaur Jr”, “Hüsker Dü” e “Meat Puppets”, só para citar alguns.

Voltando ao show, foi uma pancadaria do início ao fim, hardcore na veia, alguns dos álbuns e EPs foram tocados na íntegra e na ordem em que aparecem nos discos.

O clássico álbum “My War”, por exemplo, foi tocado na primeira metade do set. Depois disso a banda fez uma pausa, afinal a entrega era grande, principalmente de Mike Vallely.

Na segunda metade, os caras vieram novamente com tudo e tocaram na íntegra o EP “Nervous Breakdown”, e parecia que iam fazer o mesmo com o EP “Jealous Again”, porém tocaram duas músicas na sequência, a faixa-título e “No Values”, e lá pro final do set tocaram “Revenge”.

A partir daí, começaram a intercalar mais as músicas de cada álbum e a cada momento o público delirava, formando o slam dance junto com stage dive.

Aí vieram faixas do “Damaged”, “I Can See”, “In My Head” e “Slip It In”, fechando com cover de Richard Berry, “Louie Louie”.

O único senão foi a expulsão de uma pessoa do público que subiu pra fazer um stage dive. Confesso que estava meio de lado quando isso ocorreu, mas vi Mike Vallely reclamando e pedindo pros seguranças mandarem o cara embora.

Indiferente dessa treta, foi uma noite histórica para o som alternativo em Porto Alegre.

Autor

  • Marcelo Scherer

    Jornalista, editor-chefe e fundador do portal Disconecta. Aos 46 anos, respira o ecossistema musical cobrindo rock, indie e cultura alternativa. É uma voz ativa no resgate da cultura física como host do podcast e newsletter Papo de Colecionador, dedicado a LPs e CDs. Além de assinar resenhas críticas no site, expande o debate musical no comando dos programas Disconecta na Rádio na Fm Cultura 107,7 de Porto Alegre/RS e Pôr do Som na Sintonia Fm 94.7 de Torres/RS.

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