O culto da Lucifer em Porto Alegre – Entre ritual, memória e afirmação no rock contemporâneo

Redação Disconecta
Por
Redação Disconecta
A Redação do Disconecta é composta por jornalistas e pesquisadores musicais sob a supervisão do editor-chefe Marcelo Scherer. Focada em trazer as últimas notícias, lançamentos e...
6 minutos de leitura
Lucifer em Porto Alegre. Crédito: John Maglia @cogumeloemcena

Na véspera de Tiradentes — uma data que carrega em si a ideia de ruptura, identidade e construção histórica — Porto Alegre recebeu um tipo diferente de manifestação: estética, sonora e quase espiritual.

A estreia do Lucifer no Espaço Marin não foi apenas mais um show de turnê. Foi um capítulo dentro de um movimento maior que a banda vem desenhando ao vivo: transformar apresentações em experiências de imersão, onde som, imagem e memória se cruzam.

E isso já vinha sendo percebido dias antes, em Florianópolis.

No palco do Célula Showcase, a banda entregou um show descrito como intenso e guiado por atmosfera, com uma abordagem que vai além da execução musical — há uma construção emocional que dialoga com nostalgia, tempo e pertencimento . Essa ideia ajuda a entender o que se viu em Porto Alegre: o Lucifer não toca apenas músicas, mas ativa sensações.

Pontualmente às 21h, no Espaço Marin, o cenário se repetiu — e se aprofundou.

A iluminação vermelha dominante não é um mero recurso estético. Ela funciona como linguagem. Cria um ambiente denso, quase litúrgico, que conecta diretamente com a proposta da banda: um rock que flerta com o oculto, mas sem caricatura. Há controle, intenção e identidade.

Com pouco mais de apenas 200 pessoas, o show em Porto Alegre teve um caráter quase secreto — como se fosse reservado a iniciados. E isso potencializa a experiência. Diferente de grandes festivais, aqui o impacto é direto, sem filtros.

O repertório percorreu os quatro álbuns da banda, consolidando uma década de trajetória construída com consistência. Faixas como “Lucifer” e “Bring Me His Dead” funcionam como pilares, enquanto as músicas mais recentes — especialmente do ótimo álbum Lucifer V — mostram uma banda em plena evolução criativa.

Canções como “At The Mortuary” e “Slow Dance In A Crypt” reforçam essa dualidade: peso e melodia, densidade e acessibilidade. Não é um doom metal arrastado no sentido clássico — há dinâmica, há respiro. E isso explica parte da conexão com o público.

Mas o centro gravitacional continua sendo Johanna Sadonis.

Sua presença de palco não é expansiva no sentido tradicional. Não há exagero, nem teatralidade forçada. O magnetismo vem da contenção. Da forma como sua voz — ao mesmo tempo doce e carregada — conduz as músicas e sustenta a narrativa do show. Ao vivo, isso se traduz em algo difícil de replicar em estúdio: sensação.

  Ela soube bem em restruturar a banda, após o divórcio com seu companheiro de vida e de banda, co-fundador Nicki Anderson, a voz da The Hellacopters, com quem gravou os álbuns, ele era o baterista da banda.  Atualmente, os Luciferianos são Rosalie Cunningham (tem ótima carreira solo, vale conferir) dividindo as guitarras com Coralie Baier; Claudia González Diaz no baixo que tocou muito nessa noite com seu Rickenbecker, e o sósia do Lemmy Kilmister, o jovem Kevin Huhn na bateria.

Esse aspecto já havia sido percebido em outras apresentações da banda no Brasil, onde a performance é descrita como envolvente, com forte uso de atmosfera e uma execução que soa tão ou mais impactante do que as gravações .

Em Porto Alegre, isso ficou evidente.

A banda soa coesa, segura e sem excessos. Não há virtuosismo gratuito. Tudo está a serviço da música — e da experiência. Os riffs são diretos, carregados de identidade setentista, mas com uma leitura contemporânea que evita o pastiche.

E talvez seja exatamente aí que mora a resposta para a pergunta central:

por que o Lucifer já figura como uma das principais forças do rock mundial atual?

Porque entende algo que muitas bandas perderam: o rock não é só som — é linguagem, estética e memória.

O show, com cerca de 75 minutos, segue a lógica da banda: intensidade concentrada. Sem excessos, sem dispersão. E, como em outras cidades, deixa aquela sensação inevitável de que poderia ter durado mais — não por falta, mas por impacto.

No fim, o que fica não é apenas a lembrança das músicas tocadas, mas da atmosfera construída. Um tipo de experiência que não se encerra quando as luzes se apagam.

Assim como em Florianópolis, onde o show foi marcado por essa relação entre intensidade e memória, Porto Alegre recebeu não apenas uma apresentação — mas um rito contemporâneo dentro do rock.

E quem esteve lá, sabe: não foi só um show.

Foi o culto.

Crédito: John Maglia @cogumeloemcena
John Maglia @cogumeloemcena
John Maglia @cogumeloemcena

Texto por Cassio Toledo

Compartilhar esse artigo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *