“Você verá que é mesmo assim, que a história não tem fim, continua sempre que você responde ‘sim’ à sua imaginação.” (Planeta Água)
Quais artistas brasileiros completam 50 anos de carreira, carregando uma coleção de hits históricos, discos relevantes e ainda lançando obras novas sem depender apenas da nostalgia? Não são muitos. Exigem repertório, consistência, reinvenção e, sobretudo, talento real. Entre esses nomes, um deles surge naturalmente: Guilherme Arantes. Uma carreira que, fazendo elo a frase acima, sempre respondeu “sim” que nunca teve fim a sua jornada criativa.
Chamado por muitos de “Elton John brasileiro” no início da carreira — comparação impulsionada pela imagem do pianista que canta e conduz multidões — Guilherme sempre foi mais complexo que qualquer rótulo. Sua música dialoga com a bossa nova, o jazz, o pop sofisticado, o soul e até incursões progressivas. Em 2026, ele reafirma isso com o ótimo álbum “InterDimensional”, lançado para marcar o cinquentenário de sua trajetória.
Antes dele, já havia surpreendido com o ousado “A Desordem dos Templários”, trabalho de ambição estética rara, influenciado pela música espanhola e pela vivência recente do artista fora do Brasil. Um disco que ainda merece redescoberta mais generosa de crítica e público.
É com esse histórico que Guilherme roda o país com a turnê “50 Anos-Luz”, iniciada em março, em São Paulo, e já ampliada pelo sucesso. No último sábado, 25 de abril, foi a vez de Porto Alegre receber o espetáculo no tradicional Auditório Araújo Vianna, em produção da Opinião Produtora.

Noite fria, palco quente
Em uma noite levemente fria, prenúncio do inverno gaúcho, o público — cerca de 500 pessoas — não lotou a casa. Ainda assim, os presentes pareciam conscientes de estar diante de algo especial. O show começou com cerca de 30 minutos de atraso, possivelmente esperando maior entrada de público. Não fez diferença no resultado final.
No palco, Guilherme apareceu acompanhado por músicos de altíssimo nível: o lendário baixista Willy Verdaguer ( Secos e Molhados), parceiro de longa data e nome ligado ao clássico “Sangue Latino”; o baterista Gabriel Martini (Lomo Plateado, Estranhos, Power Blues) e o guitarrista Alexandre Blanc. O esperado convidado Luiz Carlini (Rita Lee e Tutti Fruti, Camisa de Vênus, Erasmo Carlos, Felipe Catto) não pôde comparecer por questões de saúde.
Entre o clássico e o novo
A cenografia era elegante: faixas laterais, grande telão ao fundo e imagens delicadas acompanhando cada canção. Guilherme surgiu impecavelmente vestido com terno azul e seu já tradicional colar em forma de semicolcheia. À direita, o piano Yamaha Clavinova. À esquerda, teclados em formato de escada, prontos para recriar texturas de cinco décadas de música.
A abertura com “50 Anos-Luz” foi ousada e sofisticada. Quase seis minutos de atmosfera progressiva, técnica refinada e arranjos que, em alguns momentos, remetiam ao Yes. Não era uma abertura para agradar pela obviedade, mas para afirmar: Guilherme Arantes segue criando.
Na sequência, veio “Amanhã”, e o vazio do auditório pareceu desaparecer. O público cantou em uníssono, em uma plateia diversa, que ia dos 18 aos 80 anos. A canção ganhou sentido ainda maior dentro de uma turnê comemorativa: olhar para trás sem perder o horizonte.
Um contador de histórias no palco
Entre uma música e outra, Guilherme falou bastante. E ainda bem. Compartilhou memórias, bastidores e reflexões com o entusiasmo de quem claramente estava feliz por retornar ao Rio Grande do Sul. Relembrou conexões afetivas e artísticas com Elis Regina, figura central em sua história pessoal e musical.
Em breve momento, brincou com público, ao trocar de óculos e dizendo:
– ” Neste momento, irei homenager o gênio Ray Charles!”
Esse formato transformou o show em algo além de recital de sucessos: virou conversa íntima com a plateia.
Contou histórias, canções que seriam gravadas por Vanusa e Wanderléa, mas que por descapricho dos deuses, ficaram na própria voz do cantor.

Canções eternas e novidades relevantes
“Brincar de Viver” foi uma das mais cantadas da noite, disputando o posto de ápice popular com “Meu Mundo e Nada Mais”, clássico absoluto de 1976 que segue impecável ao vivo.
O momento das novidades mostrou um artista vivo. “Líbido da Alma”, do novo álbum, trouxe forte pegada soul e mensagem necessária: o amor como antídoto ao ódio amplificado pelas redes sociais.
“Pedacinhos” e “Nossa Imensidão a Dois” reafirmaram a capacidade rara de Guilherme de transformar intimidade em refrões universais, embora o público não pareceu tanto importar, sedento somente por alguns dos grandes hits, em meio isso, ficavam em silêncio absoluto, deixando passar esses grandes momentos de inspiração do artista.
Já “Planeta Água” surgiu monumental. Visionária desde o lançamento, a música parece cada vez mais atual. O próprio artista comentou ações ambientais e reflexões ecológicas ligadas à canção, também expressos no documentário ” As Histórias” que narram os 40 anos de trajetória do cantor.
A intimidade com o Piano
Há um momento do show, a banda se retira, o cantor se posiciona no seu Yamaha Clavinova, desfila diversas belíssimas canções, somente ele e o piano, como em uma conversa numa mesa de bar falando inspiradamente sobre a vida. As selecionadas para o deleite piano solo foram as “Berceuse” e “Preludio” em formato pot-pourri, “Sob Efeito de um Olhar”, “Muito Diferente”, “A vida Vale a Pena”, “O prazer de viver”, “Lágrima de uma Mulher” e “Um dia Um Adeus” com extensão da parte em inglês que surgiu na hora “Wonderful in My Life”, a apresentação ganha tonalidade de maior aproximidade entre o cantor e o público, ficando evidente, o Guilherme em seu estado puro de musicalidade.
O lado crítico e a excelência musical
Uma das surpresas emocionais da noite foi “Um Dia, Um Adeus”, executada com grande sensibilidade. Depois, “Raça de Heróis” mostrou o lado crítico de um compositor que nunca se limitou às baladas românticas.
O som esteve muito bom na maior parte do tempo, com pequenos excessos de volume em alguns momentos, especialmente vindos do palco. Nada que comprometesse a apresentação.
Aos mais de 70 anos, Guilherme entregou mais de duas horas de show, com ótima performance vocal e impressionante domínio simultâneo entre voz, piano e teclados.
Frenesi final
Na reta final, “Aprendendo a Jogar” animou a plateia. Mas o grande momento explosivo veio com “Cheia de Charme”. O público oitentista levantou, cantou, dançou e transformou o auditório em festa, em quase uma pista de dança de baile oitentista, no estilo “BALONÊ” (baile típico dos anos 80 porto alegrense)
Parecia fim perfeito. Mas ainda houve bis.
Vieram “Deixa Chover”, “Fã Nº1” e o encerramento afetivo com “Lindo Balão Azul”, daqueles momentos em que diferentes gerações se encontram na mesma memória coletiva.
Um dos grandes shows brasileiros de 2026
Poucos artistas conseguem celebrar 50 anos de carreira sem soar presos ao passado. Guilherme Arantes consegue algo mais difícil: reverenciar sua história enquanto prova que ainda tem presente e futuro.
Pianista brilhante, melodista raro, hitmaker legítimo e compositor inquieto, entregou em Porto Alegre um espetáculo de requinte, emoção e classe.
Se é para falar dos melhores shows brasileiros de 2026, este precisa entrar na conversa.
E sem esforço algum. Porque Guilherme Arantes continua fazendo parecer fácil aquilo que sempre foi para poucos: ser grande por tanto tempo.














Créditos das fotos: Vivian Carravetta
Resenha por Cassio Toledo



