Uma matéria publicada pelo Futurism reacendeu uma discussão antiga no mundo do áudio: cabos caríssimos realmente fazem diferença ou estamos diante de um mito de luxo?
Cabos de alta qualidade são comercializados há décadas como parte essencial de qualquer sistema realmente sério. Seja para monitores de estúdio, seja para TVs topo de linha com cabos HDMI banhados a ouro, a promessa é sempre a mesma: extrair o máximo do equipamento.
No universo audiófilo de alto padrão, conhecido por cifras que impressionam, cabos podem custar dezenas de milhares de dólares. Fala-se em cobre ultra puro misturado com prata, isolamento especial, múltiplos condutores individuais e engenharia voltada para tirar cada detalhe possível de sistemas voltados para um público muito restrito.
O problema é que as leis da física nunca deram muito respaldo para essa narrativa. Desde que não se escolha o cabo mais barato possível, as diferenças técnicas tendem a ser mínimas na maioria das situações.
Para colocar essa discussão antiga à prova, um moderador chamado Pano, do fórum de entusiastas diyAudio, realizou em 2024 um experimento que voltou a circular recentemente após ser destacado por Headphonesty e depois analisado pelo Tom’s Hardware.
A ideia foi direta: transmitir áudio de alta qualidade por diferentes “condutores”. Entre eles, fio de cobre pro audio, uma banana verde, um cabo de microfone antigo soldado a moedas e até lama molhada. Depois, ele desafiou membros do fórum a ouvirem os clipes gerados, todos baseados em gravações oficiais em CD que haviam passado por esses diferentes meios.
O resultado foi menos dramático do que muitos imaginariam, ou não.
Segundo a tabela de resultados publicada por Pano cerca de um mês após o início do teste, os participantes tiveram enorme dificuldade em identificar quais sinais haviam passado por banana ou lama. Apenas seis de 43 tentativas estavam corretas. Na avaliação da Tom’s Hardware, os números eram compatíveis com aleatoriedade.
“O impressionante é o quanto esses arquivos soam parecidos”, escreveu Pano. “A lama deveria soar horrível, mas não soa. As regravações deveriam ser óbvias, mas não são.”
Ele ainda explicou que banana e lama funcionam basicamente como um resistor em série. Ou seja, alteram o nível do sinal, mas não provocam transformações profundas na qualidade sonora.
Isso não significa que qualquer coisa sirva como solução definitiva. O próprio Pano apontou que resistência DC e blindagem continuam sendo fatores relevantes em interconexões. Banana e lama provocam perda de nível de sinal, e nem todos os materiais mantêm resposta em frequência perfeitamente plana.
Por outro lado, ele foi direto ao ponto ao tratar do material condutor. Segundo ele, não há necessidade de cobre livre de oxigênio, prata quase absoluta ou fios especiais com nomes sofisticados. Um bom fio de cobre já cumpre o papel. Aço, ferro ou alumínio, em muitos casos, também funcionariam.
A reação do público não demorou. Em subreddits de nicho, o experimento viralizou e gerou comentários irônicos direcionados a empresas que cobram cifras superiores a cem mil dólares por cabos de alto-falante.
“Talvez existam bananas de alto padrão”, brincou um membro do fórum. “O comum não tem o melhor gosto.”
Outro usuário afirmou ter trocado cabos por bandejas de barro anos atrás. Houve ainda quem preferisse bananas pelas “propriedades quentes e felpudas do potássio”.
A provocação permanece. Se uma banana verde pode transmitir um sinal de áudio de forma praticamente indistinguível em um teste cego, a pergunta deixa de ser apenas técnica. Ela passa a ser cultural.
No fim, talvez a discussão não esteja apenas nos cabos, mas na maneira como construímos expectativas em torno do que ouvimos.
Ficou curioso? Veja a tabela de comparação nesse link: https://www.diyaudio.com/community/threads/copper-wire-vs-bananas-vs-mud-an-interconnect-test.420367/page-4#post-7882751



