Poucos álbuns soam mais “século 21” do que Discovery do Daft Punk: seu som moderno e eletrônico, mas recheado com um clima retrô e nostálgico, de certa forma encapsula o ideário popular para o 3º milênio, amalgamando não apenas referências sonoras, mas também visuais, derivadas de frutos da Cultura Pop como Os Jetsons, Star Trek, Perdidos no Espaço, Laboratório Submarino 2000, Blade Runner, Star Wars, De Volta para o Futuro e diversas outras que marcaram o século 20.
E o recorte específico dessas obras, advindas de um período entre as décadas de 1960 e 1980, é importante: todas elas foram parte da época em que Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo eram crianças na França, e suas lembranças desse momento foram tão essenciais que a nostalgia tornou-se elemento-chave no desenvolvimento do passo seguinte que dariam em suas carreiras, tanto no som, quanto na questão gráfica.
Mas não era um passo tão simples assim: Homework, estreia da dupla em 1997, trazia características bem distintas, voltado mais ao House e Eletrônico francês que era sensação na época. A boa recepção do trabalho tanto por público quanto pela crítica, em teoria, parecia apontar para que seguissem por essa trajetória em eventual sequência. No entanto, o fato de outros terem buscado mimetizar o que ali fizeram na época acabou os levando a buscar outras direções.
Essa intenção, porém, ainda não estava 100% estabelecida para eles em 1998, quando voltaram à Daft House, estúdio localizado na casa de Bangalter em Paris, na França, e começaram a trabalhar em algumas músicas. One More Time foi uma das primeiras que completaram da nova leva, com pegada voltada à Disco Music dos anos 1970, embora com ares mais modernos.
Outra que terminaram logo nos primórdios da produção foi Too Long, bastante semelhante à House Music do anterior, com 10 minutos cravados de duração, repetições típicas do estilo e som bastante eletrônico. E, por conta dela, decidiram que de fato não gostariam de fazer o mesmo que já haviam feito e que seria melhor incorporarem uma gama maior de estilos ao registro que passaram a criar.
A partir disso, buscaram desenvolver músicas de forma individual e coletiva. Utilizaram de caixas de ritmos, sintetizadores, vocoders e máquinas de samples, das quais retiraram parte considerável do que viria a ser o som do registro. E utilizaram trechos de grandes artistas dos anos 1970 e 1980 (ao menos pelo que já se foi descoberto): The Alan Parsons Project, Electric Light Orchestra, Sister Sledge, Eddie Johns…
A produção do que se tornaria Discovery seguiu até 2000, com o duo novamente sendo autoproduzido. Ao contrário de seu debut, agora facilitados pelo reconhecimento e renome dos resultados que obtiveram, chamaram alguns nomes externos para colaborarem com suas músicas, como foi o caso de Romanthony, DJ Sneak e Todd Edwards (que retornaria em Random Access Memories, de 2013, mais de 12 anos depois), que contribuíram com vocais, letras e/ou coproduzindo determinadas faixas. Ainda assim, a maior parte ficou na mão dos franceses, totalmente investidos em seu trabalho.
Por volta dessa mesma época, foram ao Japão tentar dar vida a outra ideia que tiveram enquanto desenvolviam o registro: a criação de longa-metragem em anime acompanhando-o, usando suas músicas como trilha sonora. O plano original era criarem um live-action que serviria tanto como filme quanto como clipe para as faixas mas, por serem apaixonados pela animações japonesas desde crianças, quando tiveram contato com obras da época (hoje clássicas), acabaram mudando de ideia.
A principal intenção que tinham era convencer Leiji Matsumoto, criador de Capitão Harlock: Pirata do Espaço — um favorito de ambos –, a ajudá-los a tirar essa criação do papel. E ele topou trabalhar no projeto, mas como supervisor de efeitos visuais, com a produção sendo de Shinji Shimizu e a direção ficando sob encargo de Kazuhisa Takenouchi. O desenvolvimento teve início em outubro de 2000 e seguiu até abril de 2003.
Discovery foi lançado há 25 anos, em 12 de março de 2001, e deu início a uma nova era para o Daft Punk: foi a partir desse álbum que a dupla passou a usar seus icônicos trajes de robô, dizendo que uma máquina de samples explodiu no estúdio às 9h09min do dia 9/9/1999, o que os fez passar por cirurgia reconstitutiva e, quando acordaram, estavam daquele jeito, culpa do “bug do 9999”, fictício precursor do bug do milênio.
Para além de toda essa criatividade, o trabalho teve ótima recepção crítica, e também foi um grande sucesso comercial, conquistando ótimas posições nas tabelas de vendas de todo o mundo. Muito disso se deu graças ao impacto da mencionada One More Time, lançada como 1º single ainda em 13 de novembro de 2000. A faixa foi sucedida por Aerodynamic, Digital Love e Harder, Better, Faster, Stronger, todas em 2001, com Face to Face e Something About Us sendo lançadas assim só ao fim de 2003.
Todas essas músicas ganharam clipes animados com a estética de anime (que chegaram até a passar nos intervalos do Cartoon Network na época como promoção do recém-criado Toonami, momento da programação reservado a animes), parte do que se tornou o longa animado Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem, lançado em 28 de maio de 2003 nos cinemas ao redor do mundo, com exibição antecipada no Festival de Cannes, na França, no dia 18 daquele mês. Teve muito boa recepção crítica e uma bilheteria de $6.9 milhões após a produção custar $4 milhões.
O 1º registro de Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo no novo milênio foi definidor para ele, e seu impacto ressoou ao longo dos anos para a Música Pop e Eletrônica, também influenciando o Rock em certos aspectos. Discovery foi um marco na carreira do Daft Punk graças a suas canções dinâmicas e inteligentes, além da maestria dedicada a sua criação, produção e tudo mais que o envolveu, com seus clipes e o filme animado que o acompanhou também marcando época.
E pensar que aquele era só o começo de tudo o que fariam nas 2 primeiras décadas do século 21… Mas isso é papo para outra hora.



