
A polêmica envolvendo Marina Lima e a crítica publicada na Folha de S.Paulo sobre seu novo disco, Ópera Grunkie, acabou abrindo uma discussão que vai muito além de um simples atrito entre artista e crítico. No centro da questão, está algo mais amplo: o papel da crítica negativa, e a forma como ela é entendida como uma ofensa no Brasil.
Na véspera do lançamento do álbum nas plataformas digitais, Marina usou as redes sociais para reagir a resenha, que classifica o trabalho como o pior de sua carreira. No desabafo, acusou o autor de não ter entendido o disco, de não comentar as músicas e partiu para um ataque mais direto, chamando-o de “escroto”. Me pareceu como algo não calculado, feito no calor da hora, mas que de benéfico, vai acabar atraindo mais atenção para o disco, assim como acontece com toda polêmica virtual hoje em dia.
Não que faça alguma diferença, mas é importante situar de onde parte essa reflexão. Trata-se aqui de alguém que admira profundamente a trajetória de Marina Lima. Assisti a um show seu – lotado – recentemente em Porto Alegre, e isso não apenas reforçou essa admiração como também despertou em mim um movimento que já é comum, que é o de mergulhar mais fundo na obra de um artista que estou prestes a assistir ao vivo. Revisitei e descobri discos da extensa carreira de Marina, pesquisei o setlist dos shows recentes, para buscar faixas menos óbvias que pudessem entrar no repertório, etc. Nesse processo, acabei elegendo como meu favorito da sua discografia “O Chamado”, disco de 1993 que, ao que me parece em 2026, não teve tanta atenção que merecia e não é tão comentado quanto deveria.

Lendo a tal crítica do novo trabalho, não identifiquei nenhum ataque gratuito ou pessoal, com o autor inclusive tentando contextualizar a importância da artista para o pop nacional. Além disso, e diferente do que a cantora coloca em seu desabafo, o crítico menciona várias músicas do trabalho, citando a que achou interessante, as que para ele não funcionaram, comenta a respeito da participação de Ana Frango Elétrico, e aborda temas presentes no trabalho, como a homenagem ao irmão de Marina, o poeta Antônio Cícero, falecido no ano passado. Há, evidentemente, um juízo negativo, mas ele é sustentado por argumentos, concorde ela ou não.
E aqui está o ponto: o direito de não gostar. A crítica não existe para validar a obra ou sua responsável (para isso, basta ver as respostas de fãs ao tweet da cantora), mas para interpretá-la, e quando se coloca um trabalho artístico no mundo, existe a possibilidade de rejeição. Chamar um disco de ruim, ou mesmo de o pior de uma carreira, pode soar duro, mas não configura, por si só, um desrespeito (chamar alguém de escroto, sim). Desde que haja justificativa, trata-se de um exercício legítimo, e faz parte do trabalho do jornalista.
Esse episódio também reforça algo no comportamento do brasileiro. Existe, por aqui, uma tendência à condescendência, uma espécie de “política da boa vizinhança” que já sabemos já muito tempo não ser exatamente genuína. Nos famigerados realitys musicais, por exemplo, jurados raramente fazem críticas duras, preferindo sempre incentivar, mesmo quando o desempenho é claramente fraco, totalmente diferente da postura dos jurados das versões originais desses enlatados, que adoram ridicularizar os participantes.
Essa nossa postura acaba contaminando também a forma como consumimos cultura. Ao invés de crítica, muitas vezes o que se vê é propaganda velada. E na lógica atual das mídias sociais isso se intensifica, pois a figura do crítico vai sendo substituída pela do influenciador, da parceria paga, que muitas vezes chega ao “consumidor” travestida de análise.
Nesse cenário, a crítica negativa passa a ser vista quase como uma afronta pessoal, e não como parte natural do debate cultural. O problema é que, sem esse tipo de fricção, perde-se algo essencial: a possibilidade de desenvolver senso crítico. Ler alguém falar mal do trabalho de um artista que você admira pode ser desconfortável, mas também é um convite à reflexão.
Poucos dias atrás, li um texto do jornalista André Forastieri – um notório provocador – acerca da participação do cantor Nasi, do Ira! em seu podcast, anos após uma crítica no mínimo muito ácida escrita sobre um disco do grupo, e sobre como hoje em dia eles já percebem de outra forma o ocorrido.
Não estou querendo chegar a um veredito entre certo e errado, outro malefício destes tempos binários, em que não existe nada entre o céu e o inferno. É mais sobre aprender que a crítica, assim como a arte, também pode ser espaço para incômodo e provocação.
Dito isso, ouvirei com certeza o novo disco da Marina Lima, mais de uma vez, no intuito de me aprofundar no trabalho. Além disso, buscarei outras resenhas para além desta que gerou toda a polêmica, que possam inclusive trazer à tona elementos que posso não ter observado, no intuito de chegar às minhas próprias conclusões.



