As bodas de Maxwell’s Urban Hang Suite

Virgilio Migliavacca
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Virgilio Migliavacca
Com 10 anos na área de financiamento a projetos culturais pelo Governo do Estado do RS é Crítico musical com foco na energia dos palcos e...
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Capa de Maxwell's Urban Hang Suite

Pouco tempo atrás, escrevi aqui um texto sobre o novo R&B, com ótimos discos lançados em 2025, citando a influência de alguns veteranos, como o já saudoso D’Angelo e também de Maxwell.

É justamente a estreia de Maxwell, Maxwell’s Urban Hang Suite, que completa 30 anos neste dia 02 de Abril, e segue como um daqueles trabalhos que parecem não envelhecer, pois seu som é atemporal.

Arquivo pessoal Virgilio Migliavacca – edição nacional em CD de Maxwell’s Urban Hang Suite.

O chiado do vinil que abre o álbum já funciona como um convite de luxo: durante 1 hora e 4 minutos, será contada a trajetória de um relacionamento, do encontro inicial, até a proposta.

Composto enquanto o artista trabalhava em uma cafeteria, e gravado no icônico Electric Lady, durante intervalos possíveis na agenda do estúdio (por motivos orçamentários), o disco, mesmo com todas as dificuldades impostas, apresenta uma produção refinada, e uma sonoridade Soul-Funk orgânica, que ia na contramão do que estava em voga na segunda metade dos anos 90, quando o R&B se utilizava cada vez mais de elementos digitais. E isso não acontece por acaso: nomes como Stuart Matthewman, colaborador da banda de Sade Adu e veteranos como Leon Ware e Melvin “Wah Wah” Watson, peças-chave em I Want You, disco de 1976 de Marvin Gaye, ajudam a construir esse ambiente com uma sofisticação poucas vezes vista na década de 90.

Ficha técnica constante no encarte da edição nacional em CD de Maxwell’s Urban Hang Suite.

Falando em sofisticação e Sade (palavras que caminham sempre juntas), para além do som, a postura da cantora também foi grande influência para a carreira de Maxwell. São poucos discos, longos intervalos entre eles, com o artista retornando apenas quando tem algo a dizer, e mantendo total discrição de sua vida particular. Ele mantém assim um elemento em falta quando se fala em artistas pop da atualidade: o mistério. Não sabemos nem mesmo quem é a musa de Urban Hang Suite, e talvez seja melhor assim.

Era 1996, e apesar de todas as mudanças pelas quais a sociedade – e naturalmente, as relações – atravessaram nos últimos 30 anos, não há aqui que se fazer juízo de valor sobre os termos do tal relacionamento narrado no disco. Há apenas que se ressaltar que, num momento em que as brasileiras vão as ruas pedir para não mais serem mortas, é louvável a postura de artistas como Maxwell, que demonstram, através de seu trabalho, que existe outra masculinidade possível, em que a sensibilidade é vista como um componente essencial.

Vista sua melhor roupa, prepare seu melhor drink, e participe das comemorações das “bodas de pérola” de Maxwell’s Urban Hang Suite.

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