David Bowie: 50 anos de “Station to Station”

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Em meados dos anos 1970, David Bowie se encontrava em uma cena musical diversa e inusitada: simultaneamente, a música Disco e o Funk vinham ganhando cada vez mais espaço (muitas vezes juntos), o Punk Rock nascia e tinha uma ascensão meteórica e o Rock mantinha sua força e popularidade, ganhando ramificações e novos subgêneros, enquanto alguns artistas conquistavam seu espaço e os titãs mantinham seu status, ainda que mudanças fossem abalar essas estruturas muito em breve.

Isso não era visto como um problema para Bowie, porém. De tudo, essa riqueza e variedade sonora parecia incentivá-lo a seguir criando, explorando e experimentando. Não é à toa que seus trabalhos ao longo da década saído com diferentes personas e sonoridades: Hunky Dory era voltado ao Art Rock, com o artista ainda descobrindo sua própria voz; The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars trazia-o encarnando seu 1º personagem, o tal Ziggy do título, com som mais Glam Rock.

Aladdin Sane, por sua vez, continuou o enredo do anterior, agora nos EUA e com algumas doses de Hard Rock; Diamond Dogs era inspirado em 1984, de George Orwell, e adicionava influências de Soul e Disco ao feito anteriormente; e Young Americans foi ele mergulhando de cabeça nos 2 estilos mencionados junto ao R&B, dividindo opiniões na época e até hoje tendo seus detratores.

Junto à exploração criativa, os elogios e as críticas, estava também seu vício em drogas, sobretudo em cocaína, que se intensificou a partir de 1974 e o fez perder muito peso graças a uma alimentação bastante desbalanceada, além de fazê-lo evitar o sol, tornando-o pálido de tão branco. Somado a isso, seu uso exacerbado acabou levando-o a desenvolver uma constante paranoia, o que fez com que diversos de seus amigos famosos, como no caso de John Lennon e Keith Moon, se afastassem de sua companhia.

Em abril de 1975, Bowie anunciou que se aposentaria da música, dedicando-se a atuação na adaptação cinematográfica de O Homem Que Caiu na Terra, livro de Walter Tevis. A experiência, porém, seria fundamental para o desenvolvimento de seus próximos passos, compondo faixas como TVC 15 e Word on a Wing e escrevendo uma coletânea de contos durante as filmagens intitulada de The Return of the Thin White Duke. Não a toa, sairia de sua autoproclamada aposentadoria já ao fim de setembro daquele mesmo ano.

Com trabalhos se desenvolvendo no Cherokee Studios e na Record Plant, ambos no estado da Califórnia, nos EUA, chamou novamente Carlos Alomar, Earl Slick, Dennis Davis e Geoff MacCormack, que foram parte do antecessor, Young Americans, de março de 1975. De novidades, as presenças de George Murray e Roy Bittan, que completaram o time em gravações direto ao ponto, já que todas as faixas já estavam compostas e ensaiadas. Não ouve pressa, mas o dono da empreitada tinha apenas alguns flashes de memória das sessões, tamanho o problema de seu abuso de cocaína, que persistia na época.

Tanto assim era que o levou a desenvolver sua nova persona para a fase, o Thin White Duke: um homem esguio, elegante, sempre bem vestido, mas extremamente pálido e magro. Inspirações para o personagem vieram tanto das criações do escritor William S. Burroughs, a quem chegou a conhecer em 1973, e de seu próprio papel no filme O Homem Que Caiu na Terra, com muito de sua aparência e figurino saindo diretamente de lá.

Lançado há 50 anos, em 23 de janeiro de 1976, Station to Station demorou para ter seu nome estabelecido: as ideias iniciais eram The Return of the Thin White Duke (que se tornou um dos versos da faixa-título do álbum) e Golden Years, com base na canção de mesmo nome, mas bateu o martelo durante as sessões finais, em novembro anterior, quando finalizou a música homônima.

Sonoramente, ficou em um meio-termo quanto ao antecessor, mantendo influências de Funk, Disco e R&B, mas se voltando bem mais ao Art Rock, Avant-Garde e Krautrock, dando as bases para o que viria a seguir em sua carreira. Suas letras, por sua vez, abordam uma gama de temas que vão desde amor até espiritualidade e ocultismo, algo muito próximo a Bowie, sobretudo os trabalhos de Aleister Crowley que, após inspirarem certas músicas de seus trabalhos anteriores, retornam aqui em maior extensão.

O trabalho foi elogiado pela crítica na época, e passou a ser aclamado como um dos melhores do artista nas décadas que se seguiram. A recepção do público também foi ótima, com vendas que o fizeram chegar ao 3º lugar na Billboard logo na estreia, impulsionado pela mencionada Golden Years como single, com TVC 15 e a clássica Stay consolidando essa era. Mas faixas como Word on a Wing, o cover de Wild is the Wind e a também já citada faixa-título, uma das mais longas de sua discografia, também merecem a máxima atenção e todos os elogios possíveis.

O que se deu após Station to Station é mais do que conhecido: David Bowie foi para Berlim com seu amigo Iggy Pop para que ambos se livrassem de seus vícios, dando início a uma das fases mais icônicas nas carreiras de ambos. No entanto, é inegável que esse álbum foi essencial para isso acontecer, já moldando parte de seu som e preferências, ao mesmo tempo que a era sempre é lembrada pelo personagem icônico que é Thin White Duke. Mais do que isso, porém, é um dos mais belos, sensíveis e, ao mesmo tempo, contagiantes e experimentais trabalhos, daqueles que resiste a todos os testes do tempo.

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