Ouça se você gosta de Geese

Luis Fernando Brod
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Luis Fernando Brod
Publicitário, redator e pesquisador musical com foco em classic rock, hard rock e bastidores da indústria fonográfica. Especialista com mais de 5 anos em resgatar a...
6 minutos de leitura
Geese Getting Killed

If you’re into Geese and his music, here are some similar picks we have on our shelf to expand your playlist!

A frase poderia facilmente estar escrita em um quadro-negro na parede de uma loja de discos — daquelas que organizam suas prateleiras por sensibilidade, não por algoritmo. Mas ela também funciona como uma chave de leitura para entender o momento atual do Geese, especialmente após o lançamento de Gettin Killed (2025), um trabalho que amplia o alcance estético do grupo e aprofunda suas conexões com diferentes tradições do rock.

Formada em Brooklyn, a banda surgiu associada a uma nova geração nova-iorquina que revisitava o pós-punk com energia renovada. Desde o início, porém, o Geese demonstrou inquietação suficiente para não se prender a uma única linguagem. Em Gettin Killed, essa característica se transforma em eixo criativo: o disco alterna tensão e groove, estrutura e colagem, silêncio e saturação, organizando um repertório amplo de influências que dialoga com momentos chave da história do rock.

A seguir, um percurso por essas referências — não como um exercício de nostalgia, mas como um mapa que ajuda a entender as escolhas sonoras da banda.

Proto-punk: as fundações da linguagem

Loaded – The Velvet Underground (1970)

Último registro da formação clássica, Loaded apresenta um Velvet Underground mais direto, mas ainda carregado de ambiguidade. Em “Sweet Jane”, a banda equilibra acessibilidade e estranhamento — uma dualidade que também aparece em Gettin Killed, especialmente nas faixas que parecem convencionais à primeira audição, mas revelam desvios em sua estrutura ao longo do tempo.

Marquee Moon – Television (1977)

Com suas guitarras entrelaçadas e construções longas, Marquee Moon redefiniu os limites do punk. A faixa-título exemplifica uma abordagem quase hipnótica da repetição. O Geese absorve essa lógica ao construir crescendos e camadas instrumentais que evoluem gradualmente, privilegiando o desenvolvimento em vez do impacto imediato

Remain in Light – Talking Heads (1980)

Marcado por experimentação rítmica e influência da música africana, Remain in Light aposta na repetição como força criativa (já falamos sobre este disco no Redação Disconecta). Faixas como “Once in a Lifetime” mostram como groove e fragmentação podem coexistir. Em Gettin Killed, essa ideia ressurge na forma como o Geese constrói suas bases rítmicas, muitas vezes priorizando textura e pulso.

Experimental, art-rock e punk: ruptura como linguagem

Entertainment! – Gang of Four (1979)

Seco e angular, Entertainment! incorpora funk ao vocabulário do punk. “Damaged Goods” sintetiza essa abordagem, onde ritmo e tensão caminham juntos. O Geese dialoga com essa estética ao criar faixas que são simultaneamente dançantes e dissonantes.

The Fall – 50,000 Fall Fans Can’t Be Wrong (2004)

Essa coletânea oferece uma visão ampla da repetição obsessiva e da estética minimalista do The Fall. A presença vocal de Mark E. Smith, muitas vezes mais falada do que cantada, influencia a maneira como o Geese trabalha voz e ritmo — privilegiando atitude e cadência.

Cavalcade – Black Midi (2021)

Radical e imprevisível, Cavalcade mistura virtuosismo e caos em composições densas. “John L” exemplifica essa dinâmica de ruptura constante. O Geese se aproxima dessa abordagem ao abraçar mudanças bruscas e arranjos complexos sem comprometer a fluidez de seu som.

Noir / teatral: o drama como estética

Ao avançar para um território que poderíamos traduzir como noir / teatral, o Geese revela uma dimensão mais introspectiva e narrativa em Gettin Killed. Aqui, a música se aproxima de uma encenação: cada faixa parece carregar um peso emocional específico, explorado tanto na interpretação quanto nos arranjos.

Pink Moon – Nick Drake (1972)

Minimalista e introspectivo, Pink Moon reduz a música ao essencial. A faixa “Pink Moon” mostra como poucos elementos podem criar grande intensidade emocional. O Geese dialoga com essa abordagem em momentos de contenção, onde o silêncio e o espaço ganham protagonismo.

Let Love In – Nick Cave & The Bad Seeds (1994)

Denso e dramático, Let Love In transforma narrativa em música. “Red Right Hand” constrói uma atmosfera de tensão contínua, quase cinematográfica. Essa teatralidade aparece em Gettin Killed na forma como o Geese manipula climas e intensidades.

The Bends – Radiohead (1995)

Em The Bends, o Radiohead combina melodia e melancolia em construções progressivas. “Fake Plastic Trees” é um exemplo claro dessa dinâmica (também falamos deste disco no Redação Disconecta). O Geese adota estratégia semelhante ao desenvolver suas músicas como trajetórias emocionais, não apenas estruturas sonoras.

Um mapa de influências em movimento

Mais do que revisitar estilos, o Geese parece interessado em recombinar essas referências de forma orgânica. Gettin Killed não se apoia na nostalgia, mas na transformação — utiliza o passado como matéria-prima para construir algo que ainda soa instável, em processo.

Do proto-punk ao experimental, do art-rock ao noir teatral, a banda se movimenta entre diferentes linguagens sem se fixar em nenhuma. É uma banda que reconhece as suas origens, mas as reorganiza de modo inquietante, despreocupado até, oferecendo um resultado final longe de preocupações.

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