O clássico “Moving Pictures” do Rush é mais conhecido no Brasil pela faixa “Tom Sawyer” que fazia parte da abertura de MacGyver: Profissão Perigo, seriadinho para divertir a família que passava aos domingos pela manhã na Rede Globo.
Mas “Moving Pictures” vai muito além! Aqui estão faixas tão complexas como “YYZ”, a longínqua “The Camera Eyes”, as contínuas inserções da banda no reggae feito por brancos do The Police em “Vital Signs”.
Nessa época, o plano da banda era lançar um disco ao vivo, afinal Permanent Waves foi um sucesso! A prova disso era que a turnê deste álbum foi a primeira a gerar lucro real para o Rush.
Mas quis o destino que tudo mudasse de figura quando Cliff Burnstein, responsável por levar o Rush para a Mercury Record, plantou a semente em Neil Peart que a banda passava por um momento de criatividade único e parar eles para fazer um álbum ao vivo seria um desperdício. Não foi difícil para que Alex Lifeson e Geddy Lee comprassem também a ideia.
Desafio aceito, a banda se tranca em Stony Lake em Ontario para estruturar as ideias já desenvolvidas durante as passagens de som na turnê anterior e logo em seguida seguiram para o Le Studio em Quebec, conhecido por ser o Abbey Road do Rush.
A aposta não poderia ter dado mais frutos. “Moving Pictures” é o álbum mais bem sucedido da banda com vendas superiores a 5,7 milhões de cópias entre EUA, Canadá e Reino Unido. Foi 5x certificado de Platina pela RIAA (EUA), 4x Platina no Canadá e certificado de ouro no Reino Unido.
Além disso, atingiu o 3° lugar na Billboard 200 dos EUA, ocupa a 3° posição de melhor álbum de prog e 379° posição de melhor álbum de todos os tempos pela Rolling Stone.
Mas o que impressiona mais é que mesmo sendo um álbum intrincado com progressões sonoras complexas, ele é capaz de conquistar um público que está acostumado com a simplicidade das melodias pop. Geddy Lee faz duas mudanças profundas nesse álbum que o tornam ainda mais palatável (para os moldes Rushianos). O primeiro, o mais nítido, é que ele diminui o agudo nas canções. E o segundo, que você percebe buscando informações sobre o disco, é a troca do clássico baixo Rickenbacker por um Fender Precision. Essa troca de instrumento diminui o ataque dos agudos e acentua o lado grave do som.
Análise das faixas
“Tom Sawyer”
O disco abre com “Tom Sawyer” com seus teclados futuristas, letras baseadas no romance de Mark Twain de mesmo nome, com uma entrada marcante, uma levada meio-tempo e arranjos maravilhosos de teclado, baixo, guitarra e bateria. Ela é a música do álbum capaz de capturar a atenção do ouvinte do início ao fim.
“Red Barchetta”
Precedida de “Red Barchetta”, uma ode ao carro da Ferrari que foi fabricada no final dos anos 40 início do 50. Outra baseada em literatura, nesse caso em um conto de ficção científica “A Nice Morning Drive” de Richard S. Foster. Musicalmente, um início envolvente com a guitarra lenta dando o andamento inicial. Novamente a banda acerta nas melodias, Lee canta num tom não tão alto, a progressão de acordes é bem típica do Rush, mas sem deixá-la complexa para ouvintes normais.
Até aqui, fica claro a paixão de Neil Peart pelo universo das letras. Não é à toa que tomou para si essa missão, a de ser o principal letrista da banda.
“YYZ”
Chega a hora da instrumental “YYZ”, essa sim, mais intrincada e para ouvidos menos treinados talvez possa ser um desafio, mas é incrível a percepção da banda para o mundo a sua volta, como qualquer situação pode inspirá-los. No caso dessa música, “YYZ” é o código internacional de identificação do Aeroporto Pearson de Toronto, e Neil Peart teria ouvido em um voo pilotado por Alex Lifeson.
Antigamente, quando não havia instrumentalização por GPS, os pilotos se guiavam por ondas de rádio. Quando próximos a algum aeroporto, o mesmo tocava em código morse a sua identificação. E entre as viagens conduzidas por Lifeson surgiu a ideia, visto que a banda sabia que estava chegando em casa.
“Limelight”
Na sequência vem a linda “Limelight”, uma trilha sonora deliciosa e esperançosa. Liricamente é uma música muito pessoal de Peart que aqui desbrava a ideia da ilusão sobre viver a fama, viver nos palcos e como lidar com isso sem perder a cabeça. Nessa faixa, o guitarrista Alex Lifeson brilha. Muitos consideram o solo mais bonito da carreira dele comparando a David Gilmour. A comparação é justa pela visão poética, solo profundo, daqueles que com poucas notas se resolvem.
“The Camera Eyes”
Se falamos a pouco sobre a música mais curta do álbum, a contraposição agora nos recebe em “The Camera Eyes”. Outra que tem um clima futurista inicial, mas que desenrola em uma progressão maravilhosa de Lifeson e companhia. Como tantas músicas do Rush é difícil e complexa descrevê-la, mas os arranjos da cama de teclado deixam ainda mais deliciosa as transições de suas partes. Liricamente, mais uma vez Peart mostra que é um ávido leitor. Aqui ele é inspirado pela técnica de escrita de John Dos Passos e sua famosa Trilogia U.S.A., composta pelos livros The 42nd Parallel, 1919 e The Big Money.
Explico: John Dos Passos deixa a narrativa convencional por alguns minutos e aprofunda o olhar observador a sua volta, sobre a cena que acontece e é exatamente essa técnica que Neil Peart toma para si, relatando os movimentos das cidades de Manhattan e Londres.
“Witch Hunt”
“Witch Hunt” é a prova cabal da capacidade genial de Peart sobre a arte de escrever letras. Ela é a terceira parte da trilogia “Fear” criada por ele. Não bastava a trilogia ter sido entregue ao público de trás pra frente, aparecer em outros discos, ou seja, ser amarrada durante discos consecutivos, ela ganhou ainda uma quarta parte anos depois.
E a banda não para por aí. Se você perceber, a Parte I termina com um fade out, a Parte II começa e termina com fade, a Parte III termina abruptamente e a Parte IV completa o ciclo.
Para você não ficar perdido sobre a série “Fear”: a parte um é a “The Enemy Within” do álbum “Grace Under Pressure” (1984). A parte dois, “The Weapon” do álbum “Signals” (1982). Parte três, “Witch Hunt” do “Moving Pictures” (1981) e anos depois a parte quatro, “Freeze” em “Vapor Trails”.
Liricamente, “Witch Hunt” nunca esteve tão atual como agora em épocas de xenofobia e guerras.
Uma curiosidade é que ela foi gravada no dia do assassinato de John Lennon. O clima estava estranho no mundo, será que isso ajudou a deixar ela com esse ar obscuro?
“Vital Signs”
Pra fechar o álbum e mostrando toda sua versatilidade, a banda mergulha na vibe positiva do reggae. Quem será que andou ouvindo muito The Police por lá? Ok, não é a primeira vez que eles molham os pés nesse lago, a investida já tinha acontecido no álbum anterior. Mas é legal ver como eles possuem repertório amplo sem soar um pastiche.
“Vital Signs” é gostosa de ouvir, uma música pulsante que ainda tem elementos de sequenciadores dando a ela um ar futurista, um retrato dos anos 80 e a influência new wave. Liricamente, Neil Peart mostra sua preocupação com fugir à norma e ao padrão. O refrão deixa bem claro, “Everybody got to deviate from the norm” (Todo mundo tem que se desviar da norma), um chamado a não conformidade social.
Um álbum obrigatorio para qualquer fã de música!




