O legado de Dave Mustaine é um perfeito ying yang, vai desde sua importância no cenário de Thrash de Bay Area por combinar precisão técnica em constante evolução ao longo das décadas com a agressividade de um subgênero que chegou na década de 80 com um pé na porta e outro soco na cara da indústria musical, tanto por polêmicas envolvendo atitudes nas quais, como descreveu Kerry King (Slayer) em uma entrevista “recente” ao podcast Lipps Service With Scott Lips, “é um daqueles caras que não consegue evitar de meter os pés pelas mãos”, quando se trata de outros colegas de profissão e amigos (ou ex-amigos), como também suas opiniões polêmicas que ao longo dos anos, agitaram a mídia e a paciência de muitos fãs e seu trabalho e do gênero… fora também um ou outro álbum de “risco” questionável.
Entretanto, a banda na qual catapultou o sucesso do frontman chega ao seu fim por uma segunda vez, e por razões não tão distantes de seu primeiro encerramento de atividades no ano de 2002, na época, uma Neuropatia Radial, que comprometeu movimentos de sua mão esquerda e que lhe renderam 18 meses de fisioterapia intensa para recuperação, a fim de que pudesse voltar a tocar guitarra e também as atividades com sua banda. Dessa vez, o derradeiro motivo se dá pela Contratura de Dupuytren, também conhecida como “Doença Viking”, originária de descentes do hemisfério norte, que espessa os tecidos da palma da mão, fazendo com que os dedos se curvem permanentemente até essa.

Infelizmente, questões relacionadas a saúde física graves, como também na mental não são nenhuma novidade na vida do músico, considerando que a última teve seu tratamento temporariamente interrompido para que pudesse continuar com os ritos finais de seu maior empreendimento, e um desses, é o álbum que é abordado nessa resenha, o auto intitulado que vem de forma definitiva e melancólica anunciando o fim, assim como toda canção do cisne. Não é um trabalho que se espera grandes inovações, a não ser pela fidelidade construída por 43 anos de existência com seu grande público, seja pelos fãs que permaneceram, mesmo com as mudanças de sonoridade, ou o público abrangente que, mesmo não tendo o mesmo afinco, prestigiou os trabalhos mais acessíveis de uma banda que, convenhamos, conseguiu superar a sua rival, Metallica, musicalmente tanto em quesito técnico, como também em qualidade em diversos momentos.
Antes de mais nada, é também necessário frisar…. se nessa altura do campeonato, você espera uma parede de som e peso real nas músicas, já sinto lhe informar que, não que o peso não esteja aqui, mas infelizmente quando aos produções ficam cada vez mais modernas e sofisticadas, a busca pela perfeição sonora na indústria atual, muitas vezes, resulta em uma perda de qualidade em um projeto autoral. Digamos que isso também é uma crítica bem comum ao conjunto de subgêneros que compõe o metal moderno já uns bons 25 anos de sua evolução até aqui. No caso, de fato, a produção de Chris Rakestraw aqui não difere muito dessa realidade apresentada. Som limpo demais, como as produções atuais acabam inferindo no produto final e pouco peso nas frequências graves, algo que moldou o metal por si só, são apenas um dos fatores recorrentes que chamaram a atenção negativamente de muitos ouvintes desde a primeira audição dessa nova bolacha.
E depois de uma certa idade, muitos acabam preferindo apostar no seguro, até em termos de produção e sacrificar custos, algo que não é incomum na carreira do grupo de certa forma, que rendeu uma polêmica que deu o que falar meses atrás em um anúncio do fim das atividades que rendeu um vídeo totalmente gerado por IA, tirando a oportunidade de editores de ter um cliente como Dave Mustaine e uma empresa como o Megadeth no currículo. E o mesmo também pode ser dito também da capa, que embora gere o um receio sobre o uso da ferramenta citada anteriormente, é apenas uma edição um tanto fajuta do mascote Vic Rattlehead em um simples fundo branco. Digamos que o Megadeth nunca foi um grupo conhecido pelo melhor critério possível quando se trata de capas para seus álbuns, isso já há muito tempo. Álbuns como So far, So Good… So What (1988), Risk (1999) e The World Needs A Hero (2001) que o digam.

Doa a quem doer, mesmo com todas as contravenções sócio políticas de cunho questionável proferidas por Mustaine durante a segunda metade da década de 2000 até o início dos anos 2010 na mídia, se tem uma coisa que inegável, é a forte veia política nas letras que escreve, um pré-requisito não exatamente necessário, mas bem chamativo e um tanto indispensável a uma grande maioria quando as características principais do Thrash Metal vem à tona. E elas ainda estão aqui, em uma tonalidade bem pessoal que mescla tanto com o sentimento do vocalista/guitarrista em torno de sua carreira e o fim dessa, como também o estado atual em que o mundo se encontra.
A primeira faixa, Tipping Point mostra que a banda, nem em seu último momento irá perder a identidade, é Megadeth puro, e a intensidade e o peso, que voltou com tudo no álbum Dystopia (2016), também está presente por aqui. Os solos do guitarrista Teemu Mäntysaari mesclam bem, tanto na velocidade cadenciada da música, algo também a citar, Mustaine nunca escolheu nenhum péssimo segundo guitarrista para comporem lado a lado, vide também seu antecessor, nosso tesouro Kiko Loureiro, que havia deixado o Angra na década passada para ter a oportunidade de se juntar ao time.
Liricamente, o ouvinte pode interpretar tanto como o inferno astral que o cancelamento proferido por qualquer débil mental nas redes sociais, que desprovido de sua carência externa por fácil premiação, nada tem a oferecer e de constante vazio é a própria caricatura, como também uma resistência a destruição de corpo e alma que a voz dos insinceros causam em nós, independente de meio e ambiente, e suas bizarras expectativas sobre essas prejudicadas pessoas. A faixa seguinte, I Don’t Care se mantém nessa linha, um grande foda-se á essas mesmas vozes prejudiciais, talvez, um sacode necessário que as gerações que se encontram hoje no mercado de trabalho, independente dos seus 20’s, 30’s e 40’s precisam para sair desse marasmo de destruição de identidade e autenticidade que vivem, principalmente a certos artistas que são reféns de algoritmos.
Musicalmente, segue a clássica estrutura clássica de um hit da banda que facilmente ganharia alta rotatividade na MTV na primeira metade da década de 90 com um rimo monocromático, com uma abordagem mais acessível. I Don’t Care, em sua estrutura lírica, não segue uma abordagem de storyline com um texto complexo, é uma simples e rápida mensagem de “não ligar se”, sufixo a algum infortúnio, incômodo alheio a personalidade desse citado em primeira pessoa na letra por terceiros, ou a constante reafirmação de bocas que não se calam em sua charlatanice, como em tempos atuais onde isso é um tanto comum. Embora alguns vejam isso como clichê, é bem melhor do que a complexidade de uma crítica social vazia que permeia a indústria atualmente.
A abordagem cadenciada e de peso no som segue na terceira, “Hey God?!”, que liricamente pode ser vista como uma outra abordagem um tanto pessoal de Mustaine quando se trata de sua própria fé, pelo menos a esta interpretação baseada nos fatos. Independente ou não de se tratar de um sentimento retratado, o eu lírico sente o tempo passar, tanto o tempo em que esteve ausente tanto de Deus como da própria vida parece pesar de forma brutal sobre os dias que se passam sobre sua cabeça, a insegurança e a solidão que compõe o peso da melancolia que se tem contato durante grande parte da audição. Fica claro que gradativamente, que o ritmo dos instrumentos vai diminuindo, porém, não fica repetitivo em sua monocromia, muito pelo contrário. Embora, para um disco final, essa poderia ser uma candidata perfeita para uma possível balada, presente em trabalhos de outrora na década de 90 onde se era mais comum esse tipo de composição em era Marty Friedman e Nick Menza.
Entretanto, a repetição vai ficando comum ao longo do álbum. Embora liricamente, boa parte dos temas abordados sejam os mesmos, é de se entender que se trata da composição de algo próximo de um conceito da temática triste, porém, cheia de esperança e atitude do álbum. A questão é que essa monocromia de riffs vai ficando comum em diversas faixas ao longo do álbum, e a intensidade presente na primeira faixa não vai mais se encontrando. Muito pode-se dizer também que, por conta das limitações físicas de Mustaine, esse ritmo desacelerado seja compreensível, mas fica a via de questionamento: se da mesma forma que na contradição de que “dois limões fazem uma limonada”, uma mudança brusca no estilo significaria a perda da identidade se não precisasse se repetir?
Em Let There Be Shred, a contradição ao parágrafo acima parece se fazer uma realidade, mantendo a velocidade no ritmo, já conhecida pela marca do frontman, porém, com menos energia, se comparado com o single que abre o disco. É um Trashfest um tanto sem graça se comparado com o potencial que poderia ter, porém, já considerando o dilema atual de seu compositor já citado várias vezes antes. Porém, aparenta, independente disso, mesmo que fosse mais lenta, evidencia uma falta de inspiração… ou talvez seja Dave apenas querendo meter o louco no tanto faz, lembrete de ser um tema abordado aqui, porém que não tira a firmeza da crítica imposta sobre essa faixa em questão…. quem sabe apenas a alegria de simplesmente tocar? Mas essa já foi abordada numa estrutura lírica tão clichê quanto antes por outras bandas, mas convenhamos, não é que nem uma banda colega de gênero que tentou fazer isso no ano de 2018 de forma forçada por parte de seu frontman que…. bem, deixa pra lá.
O começo de Puppet Parade lembra e muito Almost Honest do álbum Cryptic Writings (1997) que causou uma certa polêmica na época de seu lançamento, assim como seu antecessor Youthanasia (1994) por ter uma desaceleração na velocidade dos riffs e bateria, assim como também é bem comum nesse álbum. Fica uma comparação evidente a esse ponto, que esse trabalho auto intitulado lembre e muito, senão, acaba sendo um resgate da natureza na composição musical desses dois citados. Talvez aqui possamos considerar uma trilogia. Liricamente, apresenta a insatisfação, a perda do brilho no que fazia e em seu trabalho, a perda de uma rotina saudável para uma que coincida com a de um mestre dos fantoches, onde a manipulação e a decepção como resultando dão lugar na letra. Tudo se tem, porém nada se tem, muitas vezes, nada realmente se tem.
Se a vida de Peter Parker, o Homem Aranha, pudesse ser retratada de forma melhor em uma música, Another Bad Day faz uma representação bem explícita de alguém que passa por situação semelhante. É perceptível, mesmo que de forma velada, a claridade da força política por trás dessa letra, que apresenta o pior do capitalismo em formar a ideia de meritocracia com tons de cinza que evidenciam a malícia de todo um sistema como máquina de moer de gente. E a faixa seguinte, Made To Kill é uma perfeita sequência, em tempos de guerra aqui e acolá, verdades e mentiras que são fabricadas por líderes mundiais como Trump, Putin, dentre outros, ditadores por si só, são foco do cenário de destruição profetizado pelas letras da canção, onde o dinheiro e o jogo de poder ditam as normas da necropolítica.
Em Obey The Call, a temática da manipulação e dos crimes de guerra são ainda foco desse lado B do álbum. Quantas vezes soldados foram mandados para territórios vizinhos para causarem um massacre com a ideia de que estavam apenas realizando um treinamento e uma mídia parcial, com interesses por trás, também treinou intelectuais e figuras também histéricas em tempos draconianos para validar essas ofensivas militares e também destrutivas que a indústria impõe ao povo? Isso sem falar de intencionar atos perversos contra aqueles que tiveram suas vidas arruinadas também por esses que seguiam ordens.

Em I Am The War, uma proposta diferenciada ao tema de guerra nos é apresentado. O contraste mostra agora, na dualidade, uma reafirmação do eu lírico, onde a batalha e as baixas são da vida pessoal, mesmo que em um cenário também de trincheiras, mas também na selva de pedra opressora, são a realidade a ser enfrentada. Embora a letra interessante, o clima, instrumentalmente falando, começa a saturar, já mencionando a observação dada alguns parágrafos acima. A músicas não conseguem mais acompanhar a intensidade das palavras. Talvez, essa seja uma guerra que Mustaine realize, mesmo nas limitações e muito apesar da perda de sintonia, musicalmente se nota que na estrutura rítmica o álbum é bem igual em muitos momentos. Guerra essa onde pretende realizar um grand finale, custe o que custar, justíssimo para sua carreira, mesmo com os altos e baixos, que representa resiliência real e não deturpada como essa palavra é tão erroneamente vista.
The Last Note, muito apesar de seguir uma linha igual as anteriores, é um perfeito final! O frontman, de forma pessoal, percebe que seus dias no palco estão contados, e o clássico dilema de lembrar que é mortal pesa fortemente, mesclando com as letras anteriores do disco onde a ideia de uma vida ora perdida por uma indústria sangue suga e lidar com rivais e as cobras, muitas vezes, disfarçadas de “amigos”, junto daquele tapinha nas costas acaba sendo um fator que desencadeia tanto a raiva, como também uma tristeza profunda, que em uma idade já bem avançada, gera em sentimentos de solidão, onde sua voz é completamente inaudível em um mundo completamente cheio de ruídos que nada tem de positivo a oferecer, cada vez menos humanos. Cada contrato assinado, seja com gravadora ou produtores para enormes itinerários põe em cheque a sensação relativa a apesar criar música de amar tocar para os fãs, ter sido apenas uma marionete de uma indústria desesperada por um engajamento absurdamente irreal.
A faixa segue numa linha ainda mais triste e em tom de puro cinza na composição dos riffs, o peso é presente, porém, a melodia é ainda bem mais forte nessa, especialmente com o toque acústico no final, onde o vocalista professa de forma derradeira que embora as chamas do fim, com muito desdém, desaparece com maestria. E a justiça é para todos no final dia quando retoma seus riffs roubados ainda presentes no álbum Ride The Lightning por sua ex-banda ao realizar um cover da faixa título, porém, talvez quem sabe de forma apaziguadora, já considerando que também cantou as letras de Hetfield?
Uma coisa, entretanto é certa: Dave Mustaine sempre foi certeiro em suas decisões artísticas e de negócios, suas palavras sob seu próprio legado não demonstram hipocrisia, se não firmeza. Se é para acabar, que seja um fim digno, porém, sincero, que mostre um misto de sentimentos entre nostalgia e tristeza, porém, a esperança de um fim digno. Sinceridade, algo que nunca faltou vindo da boca desse grande músico. Vida longa ao legado do Megadeth!
“Isto você deve ter sempre em mente: qual é a natureza universal, qual é a minha, como ambas se relacionam […] Ninguém pode impedi-lo de falar e agir conforme a natureza da qual participa” – Marco Aurélio em Meditações (170 d.C.; 180 d.C.)



