Stranger Things: encerrar não é o mesmo que concluir

Julio Mauro
5 minutos de leitura
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Texto com spoilers

O final de Stranger Things deixa uma impressão clara: a série termina mais por decisão de calendário do que por necessidade narrativa. Os conflitos são resolvidos, os arcos recebem um fechamento funcional e os personagens chegam a um ponto final definido. Ainda assim, o caminho até esse fim é guiado por cautela, não por enfrentamento das próprias escolhas.

Nada desanda. Nada foge do controle. E talvez esse seja o principal problema.

Hawkins como retorno previsível

Levar a história de volta para Hawkins era esperado, mas o uso da cidade no final não acrescenta novas camadas. O espaço que antes ajudava a construir tensão passa a cumprir um papel quase mecânico. Os eventos seguem uma lógica já conhecida e pouco questionada.

O Upside Down permanece presente, mas sem avanço conceitual. Ele continua funcionando como ameaça visual e narrativa, sem que a série tente ampliar seu significado ou propor novas leituras. O mistério permanece, mas agora mais por decisão do roteiro do que por necessidade dramática.

Vecna como função narrativa

Vecna cumpre o papel que lhe foi atribuído desde a introdução. Ele existe para ser enfrentado e eliminado. Não há desvio, aprofundamento ou consequência que ultrapasse esse limite.

O tempo dedicado ao vilão não se converte em complexidade adicional. A série evita tensionar suas próprias ideias e opta por um encerramento direto, que resolve o problema sem deixar repercussões mais amplas no universo apresentado.

Eleven e a decisão controlada

O arco de Eleven se encerra a partir de uma escolha, mas essa escolha não gera impacto estrutural. A personagem termina protegida pelo roteiro, sem que a decisão implique perda real ou mudança profunda de posição.

A série sinaliza amadurecimento, mas não o testa. Tudo permanece dentro de um espaço seguro, em que a trajetória se fecha sem fricção com o que foi vivido ao longo das temporadas.

O grupo e a ausência de peso

O tratamento dado ao grupo principal reforça a sensação de excesso de proteção. Stranger Things flertou com consequências mais duras em outros momentos, mas no final recua novamente.

As relações seguem adiante com pequenas alterações, mas sem rupturas. O tempo passa, os eventos se acumulam, porém o impacto disso raramente se manifesta de forma concreta. A ideia de crescimento aparece no discurso, mas pouco na prática.

Nostalgia como sustentação

A nostalgia segue presente até o último episódio. Diferente de temporadas anteriores, ela não serve mais como contraponto ou comentário, mas como sustentação. As referências funcionam como reconhecimento imediato, sem ampliar o significado das cenas.

O passado é constantemente reafirmado, enquanto o futuro permanece pouco definido.

O RPG, a regra esquecida e a chance perdida

O detalhe mais simbólico do episódio final está justamente na cena que tenta fechar tudo em tom leve: o grupo reunido em volta da mesa, jogando RPG, como no início da série. A imagem busca circularidade, reforçar a ideia de que, apesar de tudo, algo permanece igual.

Mas o próprio RPG apresentado ali aponta para outra possibilidade que a série decide não seguir. Em jogos de mesa, especialmente aqueles que inspiraram Stranger Things desde o começo, não existe garantia de vitória. Dados falham. Estratégias não funcionam. O vilão pode vencer, e muitas vezes vence. Isso não invalida a jornada, apenas muda o tipo de história que se conta depois.

Ver Vecna triunfar, ainda que de forma definitiva e sem espaço para continuação, dialogaria diretamente com essa lógica. Não seria um final confortável, nem conciliador. Seria coerente com o jogo que a série sempre disse estar jogando. Um encerramento em que o mestre não ajusta a dificuldade para salvar o grupo, mas aceita o resultado da partida.

Ao optar pela vitória dos protagonistas e pela repetição da mesa como gesto simbólico, Stranger Things escolhe a lembrança segura, não a regra implícita do próprio universo que construiu. O RPG aparece, mas sua principal lição é ignorada.

O final funciona, fecha a história e entrega reconhecimento emocional. Ainda assim, fica a sensação de que a série esteve muito perto de um desfecho mais honesto com suas próprias referências. Um final em que perder não seria fracasso, mas conclusão.

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