Início de ano, a força motriz do showbizz começa já a atuar com força no meio metal, com grandes promessas para o mês, incluindo na programação shows como Death To All (que assim como dessa resenha, também é celebrada pela Overload) e também dos Corrosion Of Conformity, assim como também dos Suecos do Dark Tranquility, que embarcam novamente ao Brasil após sua apresentação no festival Summer Breeze (antigo Bangers Open Air) no ano de 2024.
Em um domingo de extremo Sol, as portas estavam programadas para a abertura as 18h30, com a surpresa, entretanto, da liberação adiantada de 10 minutos para o evento. O público presente preencheu com gosto a casa (não lotada, porém cheia), foi uma das atrações mais aguardadas da produtora desde seu anúncio no ano anterior, atração essa que trouxe como parte do setlist, a celebração de tanto 30 anos do lançamento do álbum The Gallery (1995) e também do Character (2005), esse lançado 10 anos depois do clássico do gênero Death Metal Melódico que moldou a cena, tanto como seus conterrâneos do At The Gates, In Flames, assim como também os britânicos do Carcass e muitos outros.

O show iniciou com 5 minutos de atraso que nem fizeram a menor diferença, e mesmo que fosse o caso, a geografia onde o Carioca Club, casa que recebe diversos nomes do gênero desde outrora, também ajuda bastante na locomoção, com extrema mínima distância até o metrô da Faria Lima, e com o acesso a diversos estabelecimentos já conhecidos por frequentadores da cena paulista e também das opções de barraquinhas ao redor (vide que no momento presente até o fim do evento, rolava o Festival da Botecagem aos arredores, então, não seria falta de opção para alimentação). A banda entrou chutando tudo iniciando os trabalhos com o set do clássico The Gallery que, apesar de bem recebido pelo público e muito bem executado pela banda, sofreu com a instabilidade vinda da equalização do retorno do som nos instrumentos, logo justamente a parte mais agressiva e Old-School do setlist.
Muito apesar desse perrengue no início, as músicas, como dito antes, foram celebradas pelo público, especialmente o das antigas que puderam prestigiar o lançamento na época. Mikael Stanne, único membro da formação original, compartilhava do mesmo carisma presente nos colegas de banda, a grande maioria sorridente e presença de palco de destaque, essa que o simpático vocalista já é bem letrado em oferecer durante uma performance. Durante a execução de parte desse clássico set, Stanne cita, mais uma vez de praxe, como na passagem anterior pela América Latina, a importância da presença dos fãs, que desde as antigas, escreviam cartas vindas de todos os lugares, e que ali continuavam a dar valor e consideração á uma das grandes bandas do gênero. Sejamos sensatos, mesmo nas menores mudanças de sonoridade, essa nunca abandonou de sua abordagem original como seus colegas do In Flames que passaram por uma catastrófica crise de identidade sonora na década passada, banda essa que também gravou os vocais no primeiro álbum Lunar Strain (1994).

Durante parte da execução do set do material do álbum Character, Stanne chegou a brincar com a passagem do tempo das coisas ao se perguntar quantos anos desde o lançamento, “10 anos”? Assim também de como era concebido como algo trabalhoso certas músicas desse serem executadas ao vivo a outrora como naquela noite. É de se perceber, entretanto, que ambos os álbuns não foram tocados em completude, mas sim, como uma seleção de “Greatest-Hits” de cada um desses, por exemplo, a faixa de destaque do trintão The Gallery como Punish My Heaven, cheia de passagens e mudanças de tempo, que grita todos os elementos do Death Metal Melódico, desde as passagens acústicas, até na variação entre riffs, e a cadenciada Lethe, assim como o intenso lado B The Emptiness Which I Feed.

Para o que celebrava sua recém “vintolecência”, uma chance de maior destaque para músicas não celebradas ao vivo dessa, como também da clássica de destaque Lost To Apathy, que tem uma mensagem que funciona da água como vinho para tempos atuais de extrema automatização, certeza sem fundamento e moralismo exacerbado que leva a perda da humanidade para performance e a rendição a apatia, como derrocada final a perdição nesses tempos atuais. Entendam, entretanto, que embora o silêncio da audiência (que em maioria estava mais pela execução de faixas do segundo álbum da banda) durante a execução de parte do set desse trabalho lançado em meados da década de 2000, Lost To Apathy não era uma resposta ao “silêncio” desse, ainda mais que durante parte da apresentação por inteira, a banda era constantemente ovacionada, emocionando o vocalista durante grande parte do tempo, assim como os outros membros da banda.
Convenhamos que também, Character é um trabalho direcionado á outro público dessa que entrou a partir de um período pós Projector (1999), clássico que torceu o nariz de muitos pela sua característica comercial evidente e uma aproximação leve ao Gothic Metal, que sejamos honestos, o próprio The Mind’s I (1997) já possuía um pouco desses mesmos elementos e também poderia ter tido uma palinha nessa terceira parte do show. É durante após a execução de The Last Imagination do trabalho Endtime Signals (2024) que o público entra em puro êxtase com a entrada de ThereIn, single do citado a priori no parágrafo anterior que há 27 anos agora redefiniu parte da audiência do grupo. Se Lost To Apathy põe os pingos nos I’s sobre a apatia em tempos de automação, a mensagem que essa trás já é uma resposta de esperança, a beleza na contradição na razão, sempre sólida, por parte de alguém que buscar compreender, em dificuldade, as próprias emoções.

Mais duas do último trabalho, no seu ciclo de divulgação para América Latina são tocadas, Unforgivable e Not Nothing, dando espaço para Atoma, clássico moderno do álbum de mesmo nome lançado em 2016 e recebido com empolgação pelo público que se encontrava bem animado durante todo o show, que também recebiam no mesmo entusiasmo, duas do álbum Fiction (2007), como Misery’s Crown e Terminus (Where Death Is Most Alive), compondo junto essa terceira parte, a faixa Phantom Days do disco Moment (2020), lançado durante o auge da pandemia.
No ato final, a banda aproveita para homenagear um símbolo de extrema importância na cena de Gotemburgo, pelas belas palavras do vocalista, Tomas Lindberg, ou melhor conhecido como “Tompa”, que de acordo com Stanne, foi o elemento principal e responsável por unir toda aquela cena na Suécia, e nada melhor do que tocar um cover da principal empreitada musical do saudoso músico vocalista, Blinded By Fear, do At The Gates, que foi recebida com calor e emoção de forma recíproca pelo público. Era perceptível antes da performance dessa, até depois quando a banda se despedia, deixando apenas o frontman em cima do palco com fotos icônicas do amigo, com a faixa The Flames Of The End do álbum Slaughter of the Soul tocando nos PA’s, que Stanne estava bem emocionado ao estar ali, vendo que a partir do prestígio do público, o sentimento era mútuo.

É um novo tempo para os suecos do Dark Tranquility aqui no Brasil que, infelizmente das vezes anteriores que aqui no país estiveram, passaram pelo dilema de lidar com um público menor do que esperado para a magnitude do evento deles, seja pela primeira vez em 2010 que precisou uma promoção de dia dos namorados ajudar a facilitar no preço para atrair mais pagantes, e também outras onde a casa era menor, diante a anterioridade da ausência de procura, como também, de uma turnê Latino Americana em 2022 que não tinha o Brasil nos planos, situação apenas revertida para o festival Summer Breeze, como dito no primeiro parágrafo, que talvez tenha sido uma das razões pela inclusão de um público maior. Que dessa vez, haja uma frequência onde após essa, o público seja certo, e que o público da cena paulista não se percam para a apatia quando as oportunidades pintem, muitas outras cidades e capitais pelo país ultimamente não andam tendo essa mesma sorte com altos preços dos ingressos e logística.
Setlist
The Gallery:
1. Punish My Heaven
2. Edenspring
3. Lethe
4. The Emptiness Which I Feed
5. The Dividing Line
Character:
6. The New Build
7. One Thought
8. The Endless Feed
9. Through Smudged Lenses
10. My Negation
11. Lost To Apathy
Terceira Parte do Set:
12. The Last Imagination
13. ThereIn
14. Unforgivable
15. Atoma
16. Not Nothing
17. Terminus (Where Death Is Most Alive)
Encore:
18. Phantom Days
19. Misery’s Crown
20. Blinded By Fear (Cover de At The Gates)



