Quando Max Cavalera contou a Cess Wessels, fundador e antigo CEO da Roadrunner Records sobre a ideia de trabalhar com os índios Xavantes para o conceito do álbum Roots, a reação de espanto foi imediata, “O que Heavy Metal tem a ver com um bando de índios pelados?”, e mesmo com a explicação do frontman sobre criar algo que não havia sido feito antes no gênero, ainda assim, a desconfiança do chefão era grande, “Tudo bem, mas pra mim, parece uma compilação de reggae. Não sei se os fãs de metal vão curtir”.

Caso não tenha passado os últimos 30 anos morando dentro de uma caverna, sabe que o álbum de maior popularidade da carreira do Sepultura gere mistas reações, dependendo de que tipo de público você faça parte. Caso seja parte de um público mais abrangente, o álbum para você complementa em harmonia a discografia da era Max, e o single Roots Bloody Roots está sempre em suas playlists ou na saideira dessas no rolê nunca falta; caso parte de uma audiência que torce o nariz a proximidade da sonoridade Nu Metal adotada pela banda, talvez os lançamentos anteriores os agradem mais, especialmente pela natureza “menos” comercial… se bem que era criticada desde outrora por suas mudanças no som, que iam desde o Death para o Thrash Metal.
Destacar a importância desse álbum para o cenário metálico é quase que chover no molhado, diversas bandas do gênero Nu Metal beberam demais da fonte desse lançamento, desde o Slipknot pelas influências na percussão tribal e a mistura de elementos extremos na sonoridade, até mesmo a abordagem de assuntos políticos sociais e a própria cultura do país de origem com o System Of A Down, que curiosamente, esteve em suporte ao primeiro álbum abrindo tanto para os brasileiros como também ao Slayer no ano de 1998, divulgando o polêmico Diabolus In Musica, durante a Diabolus On Tour na Europa. Não apenas reacendeu a importância do Brasil no cenário internacional quando se trata de arte, mas deu uma nova faceta a um público que pouco conhecia o país a não ser pelos clássicos estereótipos que aqui não irei tecer comentários sobre.
Roots Bloody Roots: Em 1995, os Seps viviam no auge. Uma banda brasileira, com cada membro naquele momento vivendo em Phoenix, Arizona, jamais teriam antes imaginado tão grande oportunidade de crescimento em sua carreira musical, ainda mais vindos de um país que não apenas desvalorizava o gênero, mas como também, muitas vezes, fechou as portas para os rapazes e também outras bandas do estilo, e que ainda vivem de um preconceito elitista da classe proprietária de uma dita “alta cultura” até hoje em nosso território. O lançamento anterior Chaos A.D. abalou as estruturas da indústria internacional, lhes garantindo não apenas notoriedade a grandes festivais pelo mundo direcionados para um público mais abrangente, como também lhes garantiu compartilhar turnês com outros grandes nomes da década de 90, como Pantera, White Zombie, Prong e Paradise Lost, de exemplo.
Naquela época, seu frontman, Max, já havia trabalhado no ano anterior em um projeto de Industrial Metal chamado Nailbomb com o lançamento Point Blank, juntamente com Alex Newport do Fudge Tunnel, além de participações especiais tanto de Dino Cazares (Fear Factory), como também de outros membros do próprio Sepultura, como Iggor Cavalera e Andreas Kisser. Não havia nenhuma limitação musical que impedisse a expansão de seus horizontes, porém, anos passados em constância no exterior os faria voltar os olhos artisticamente de forma totalmente conceitual para sua terra natal.

Todo o conceito para a nova empreitada surgiu através da inspiração do filme Brincando Nos Campos Do Senhor (1991), onde um casal de missionários é enviado para a Amazônia para catequizar os índios, enquanto dois mercenários tem a proposta da polícia local de expulsar os membros da aldeia Niaruna do local. Ao contar a manager e esposa, Glória Cavalera sobre a ideia de gravar com índios no Brasil, a reação de espanto foi semelhante a de Cess Wessels, “Sabe quanto isso vai custar? Vocês não são como o Michael Jackson, não tem um orçamento ilimitado”, e ao ser convencida, entraram em contato com Angela Pappiani, que trabalhava no Departamento de Assuntos Indígenas. Pappiani vetou a ideia inicial do frontman de trabalharem com a tribo Caiapó por serem hostis com homens brancos, sugerindo, então, os Xavantes, conhecidos por serem mais abertos a esse tipo de comunicação, e tendo como representante o seu líder, Cipassé, que também é um importante ativista socioambiental.
Ross Robinson, produtor que havia trabalhado no primeiro álbum do Korn que havia sido lançado em 1994, foi recomendado por Monte Conner, importante caça talentos e executivo musical da época, a trabalhar junto com a banda, e os acompanhou na viagem até o Mato Grosso para a estadia do grupo junto da tribo, sendo recebidos por Cipassé; “Max, conversei com o Cipassé e ele colocou uma condição: se por algum motivo, eles acharem que as coisas não estão indo bem, devemos interromper tudo e partir”, ao avisa-lo sobre uma possível imprevisibilidade no choque cultural ao contato com os nativos. Entretanto, o primeiro contato foi melhor do que esperado, e se deram muito bem com todos, desde jogando bola em um calor de 43 graus aproximadamente com todos até tocando Kaiowas, acústica faixa com elementos regionais do álbum anterior que cativou a toda tribo a trabalhar junto deles.

Os membros da banda pintaram os corpos e rostos como os membros da tribo para que a experiência fosse mais imersiva, e a faixa escolhida para gravar havia sido Itsári, que na língua Xavante significa Raízes, sendo essa composta pela tribo e performando de forma natural junto ao grupo depois de tantas vezes cantada durante os ensaios. “Ross apertou o botão e começamos a gravar, ele decidiu que queria mais entusiasmo dos índios e começou a correr ao redor do círculo que nem louco. Olhávamos pensando ‘Que porra esse cara tá fazendo?’, de repente, tropeçou num pedaço de madeira e caiu de bunda no chão. Os índios caíram na gargalhada, dá pra ouvir os risos na gravação” – Max Cavalera em seu livro My Bloody Roots.
“Tínhamos um monte de fotos com os Xavantes e também decidimos doar nossos instrumentos para tribo. Cipassé teve uma afinidade com a gente, pois éramos como eles: párias em relação ao restante da sociedade brasileira. Por esse motivo, se sentia próximo de nós” – Max Cavalera
Attitude: As gravações ocorreram no Indigo Ranch, em Malibu. Robinson era bem excêntrico, agitado e se conectava de corpo e alma com toda banda, chegando até bater cabeça com os caras durante a gravação. Havia trabalhado também na primeira demo do Deftones no ano de 1993, que chamou atenção também para o que procuravam na sonoridade crua e suja, também presente no debut do Korn. “Ross tinha uma perspectiva bem diferente. Ele veio e nos mostrou novas possibilidades. Ele teve essa ideia de abrasileirar as jams e dar uma proximidade mais livre para tudo” – Andreas Kisser para a Louder, em 2016. Tiveram principalmente a ideia de convidarem um percursionista brasileiro para as gravações, tendo de ideia inicial, o lendário Naná Vasconcelos, porém, devido a conflitos de agenda, Carlinhos Brown acabou entrando no lugar se juntando ao time.

Brown e os Seps se encontraram em Los Angeles para a gravação do single “Ratamahatta”, cuja ideia veio do próprio percursionista, levando uma cuíca e berimbau. Segundo Max, o musico quando canta “Hello uptown, hello midtown, hello downtown” durante a música, que seria um relato pelas suas aventuras quando esteve abordo de um taxi por Manhattan e a parte principal teria a ver com um rato na cidade que, convenhamos, para quem foi ou pelo menos tem algum conhecimento sobre Nova York, sabem como os os ratos tem domínio nos metrôs sujos do local. A ideia para o videoclipe veio dos clipes de Sober e Prision Sex do Tool, feitos com animação em massinha na técnica stop-motion por Fred Stuhr, que também trabalhou no clipe de Three Little Pigs do Green Jellÿ em 1993, e que também infelizmente faleceu no ano de 1997 em um acidente de carro.
“Havia uma gigantesca ravina próxima ao estúdio, com cerca de trezentos metros de profundidade, e Ross e eu pensamos que ali seria um bom lugar para uma jam com instrumentos de percussão onde poderíamos utilizar o eco natural. Fomos lá e tocamos por 5 horas com o Carlinhos Brown. Ele fumou um pouco de maconha e bebi vinho porque era uma sessão hipnótica e durou bastante tempo” – de acordo com o frontman em sua autobiografia. Apenas 13 minutos foram utilizados, e é intitulada como Canyon Jam, como última faixa, disponível em algumas prensagens e versões, dando imersão ao conceito e uma maior atmosfera pós caos sonoro proposto pelo álbum.
“O Sepultura reescreveu as regras do jogo outra vez com o Roots, Passaram por uma mudança de estilo absurda. Quando ouvi as demos de ‘Roots […]’ e ‘Dusted’, fiquei chocado e preocupado. Achei que o som era completamente anti-comercial e disse: ‘Acho que estão cometendo suicídio comercial’ – que foi de onde ele tirou o títuulo para o ao vivo ‘Proud To Commit Commercial Suicide’ do Nailbomb” – Monte Conner para a autobiografia de Max, My Bloody Roots.

Lookway, bizarra faixa do disco que complementa a excentricidade de Roots tinha nada mais e nada menos que duas participações especiais. Uma de Jonathan Davis do Korn, e outra de Mike Paton do Faith No More, esse já tendo uma amizade de longa data com os Seps, desde o início daquela década. A música, tocada de forma lenta, consegue entrar em sinergia com o ritmo hardcore que o álbum também apresenta no refrão, com as excentricidades de cada um dos convidados representadas nos vocais. “O Jon estava pirado porque Mike era o herói dele. Lembro dele bem nervoso, tímido, e ficava comendo o cabelo. Mike veio de terno pro estúdio e perguntei á ele ‘o que você tem escondido aí?’ Ele abriu o terno e tinha um pedal de eco para a voz e uma garrafa de vinho tinto que ele dizia que eram duas coisas que ele precisava para a gravação. Achei essa gravação com eles da hora, no fim da música, no fim da gravação, nós três deitamos no chão com os nossos microfones e fizemos os barulhos mais absurdos, o Mike soando como um macaco violentado, o Jon nem sei o que dizer e eu fazendo ainda pior. Foi do caralho, nós três rolando no chão e gritando, foi um momento mágico” – Max para a Metal Hammer em 2016 falando sobre o processo de gravação da faixa.

Inspirado na nota de mil cruzeiros, Max havia enviado a cédula para Michael Whelan, artista responsável pelas ilustrações da capa e conceito do produto final em mídia física dos álbuns da banda, para se basear na ideia conceitual regional/nacional para o ilustrador. Na nota, duas indígenas da tribo Iny Karajá, Jijukè e Koixaru Karajá ilustravam a cédula de cruzeiros. Na época, o plano real já havia dado as caras dois anos antes, e a moeda substituída. Jijukè é a que ilustra o produto final que vemos sobre vigas e ramos vermelhos que cobrem em vermelho um fundo preto no layout da imagem.

Itsári: O conceito de retorno as raízes está bem atrelado também a própria atitude de “faça você mesmo” que os integrantes tiveram ao chegar onde estavam naquele momento. Aqui há menos espaço para virtuosismo, assim como de anterior em Chaos A.D, sendo bem direto ao ponto tanto no som como o conceito lírico. O single que abre o disco é uma reafirmação identitária forte com as próprias origens, depois de alguns anos morando no exterior, fica evidente não apenas a saudade de casa, mas a lembrança do lugar de onde vieram. É uma mensagem de resistência, ao mesmo tempo, que abre a temática que o ouvinte vai ser exposto ao longo da audição. Attitude é o sacode que muitos precisam, é o chamado para a contradição das normas dos que lhes prendem a grilhões da normatividade e tentam de, todo tipo de forma, doutrinar ás suas padronizações. Outra faixa que bate forte nessa tecla é também a Born Stubborn, ao mesmo tempo que mescla a importância de uma identidade e pertencimento, seja pela representação da palavra “tribo” na música. Vale lembrar que na época, os fãs eram chamados, em comunidade, de “sepultribe”, da mesma forma que “maggots” para o Slipknot, etc.
O álbum seguia uma fórmula hardcore, ainda que com um pouco da sonoridade Thrash de outrora, porém, seguindo os moldes do Groove Metal vindos do trabalho anterior, e essa mesma energia Hardcore e Punk que acaba presente não apenas nas letras, mas também na faixa Dictatorshit, é um rápido e raivoso lamento a todas as vítimas de um regime que destruiu identidades e impediu o progresso por longos malditos anos. Endangered Species é nada mais e nada menos que o prenúncio e a revolta ao fim de uma própria espécie que se auto destrói, seja pelas regras do sistema ou as guerras com seus manda chuvas por trás. Dusted pode ser interpretada talvez de diversas formas, seja como crítica a manipulação, ou como a própria música diz, o controle por parte de uma mentalidade fechada, a rigidez cognitiva vinda de ideias ultrapassadas ou elitistas.
Ambush é um tributo ao ativista Chico Mendes, ativista político e seringueiro que foi assassinado em 1988, aos 44 anos de idade, devido a sua militância que se contrapunha aos interesses da União Democrática Ruralista, que já sofria ameaças e perseguições antes de sua derradeira execução, pelos fazendeiros e criminosos Darly Alves da Silva e Darci Alves Ferreira, cada qual pegando 19 anos de prisão, algo inédito na justiça rural do Brasil. Como se não bastasse, Darci Alves Ferreira assumiu, mesmo que destituído do cargo no mesmo dia, a presidência do PL em Medicilândia. Roots está longe de ser um passeio no parque, e ao mesmo, e expõe a dura realidade de um país com sangue de inocentes em mãos, daqueles que também compõe a linhagem de nossas raízes sangrentas. Geralmente é nessa parte, principalmente no fim da própria música em que a sonoplastia dos tiros da espingarda ecoam que a atmosfera começa a ficar mais densa e gelada para quem ouve, pelo menos para os que vos escreve esse especial, também foi.

Se Roots Bloody Roots é o arroz de festa, seja de todo show da banda, Ratamahatta se junta a culinária, pelo menos nesse sentido, incrementando não apenas as peculiaridades antes mencionadas parágrafos acima de Carlinhos Brown liricamente, como também cantando e citando palavras e nomes de figuras de nossa cultura a esmo, como Zé Do Caixão e Zumbi. O álbum como todo é uma excentricidade, como o próprio frontman descreveria, seria uma novidade ao mainstream da época, que mesmo apesar do continente Europeu bandas já incrementarem sonoramente elementos regionais na sua música, para uma banda de metal, era algo inédito ver uma brasileira fazendo o mesmo, mostrando as caras ao mundo através de um som agressivo e sem firulas. No mesmo ano, pouco tempo depois, um outro gigante brasileiro, o Angra lançaria Holy Land, cuja temática se aproximaria e muito do que o Sepultura havia feito, mostrando um salto inspiracional do álbum Angels Cry (1993), lançado três anos antes.

Born Stubborn: Roots foi lançado em 20 de Fevereiro de 1996 na Europa, tendo também seu lançamento oficial ocorrendo na América do Norte em 12 de Março, logo um mês depois. Teve disco de ouro nos Estados Unidos, Reino Unido, Polônia, Países Baixos, França, Canadá, Áustria e Austrália. Na época, a Associação Americana da Indústria de Gravação (RIAA), que certificou ouro aos Estados Unidos, registrou 500.000 cópias vendidas no país, e alcançou o número 27 das 200 das paradas da Billboard US. O sucesso foi simplesmente bombástico, a banda no auge, fazia coletivas de imprensa aqui e ali, tocava em grandes festivais populares, trazendo apresentações explosivas, experiências únicas daquelas que “quem viu, viu”, tendo uma das apresentações mais apoteoticamente insanas no holandês, Pinkpop Festival, hoje disponível por completo no Youtube, mostrando um público sedento por música e diversão, algo que só poderia ser visto em tal época, e quase que por extinto em uma era de constante performance com câmeras celulares substituindo a presença dos olhos nos shows, infelizmente.
Para quem já conhece, independente de ter presenciado ao vivo, ou por vídeo, não desconhece o famoso bordão, ou melhor dizendo, grito de guerra de Max Cavalera ao evocar a audiência nos shows com o famoso “VAMO DETONAR ESSA PORRA!!!”, todo show desses caras é um show da vida, e até quem tava em casa não para quieto quando assiste. Eles, assim como outras grandes bandas que fizeram grande sucesso e tiveram seu auge na década de 90 faziam o chão tremer, toda apresentação era histórica e um grande momento para se estar vivo! Tocaram também no Ozzfest ao lado de nomes como Fear Factory, Slayer, Danzig, Neurosis, Biohazard, além de, é claro, o próprio Madman! De grandes casas de shows, Anfiteatros até mesmo grandes festivais, nada poderia parar esses quatro moleques que estavam ainda na casa dos 20 e poucos…. exceto o peso do próprio sucesso.
“Eu acho que as coisas não estavam mais certas quando começamos a turnê do Roots. A gente viu coisas que nenhum dos outros três iam querer. O outro lado estava ganhando crédito por tudo e não dando ao resto da banda pelo trabalho feito por nós” – Paulo Xisto para a Louder em 2016
Infelizmente nem tudo são flores quando se chega ao topo. Desde o nascimento do primeiro filho, vindo da união entre o frontman e a empresária da banda, Glória, um distanciamento desse entre a unidade começou a se tornar algo bem comum. “As coisas começaram a ficar esquisitas antes disso. Quando o Zyon nasceu (em 1993), ao invés de termos uma foto da banda como capa de revista, eles tinham uma do Max com o filho dele. Tinha nada a ver com a banda. Ter filhos não é nada de especial. Eu tenho três. Eu os amo muito, mas não os uso como se fossem um troféu” – Andreas também para a Louder. E a recíproca acabava sendo verdadeira.
Durante a turnê, era comum que os filhos dos integrantes, a grande maioria bebês, se não pelos enteados de Max, serem parte dos passageiros do ônibus, junto das esposas nas viagens. Talvez, trazer a família em uma certa constância para as turnês não seja uma boa ideia, especialmente quando há negócios a parte, porém, para os pais, aquilo poderia ser problemático considerando o alto itinerário que agora tinham de cumprir. Mesmo assim, não se evitavam desgastes. Não apenas ônibus separados, mas também o frontman acabava sendo destituído da unidade de forma geral conforme a empresária, segundo os outros integrantes, fazia a cabeça dele não apenas para ser um único porta voz, mas também por evidencia-lo em uma carreira solo de forma injusta, apagando o brilho para o resto dos membros e de suas composições ali presentes.

Essa encrenca havia começado, como o próprio Andreas menciona, já desde a turnê do Chaos A.D. No ano de 1994, durante o lançamento do projeto Nailbomb, Max queria realizar a divulgação do trabalho de forma extensiva usando o Sepultura como uma fonte, chegando a cogitar até mesmo tocar grande maioria das músicas como parte de uma turnê em suporte, algo que acabou irritando os outros membros, especialmente já citando a intenção de transforma-lo em não um líder, mas sim, em um dono onde o restante seria considerado apenas como uma série de músicos contratados. Porém, como banda, mesmo que diante de diversos problemas pessoais, quando estavam em estúdio, eram os quatro contra o mundo, fazendo apenas o que importava no final do dia.
É bem comum em entrevistas mais recentes notar que até mesmo Max cita que a época, o Sepultura tinha chegado á um ponto de encarar uma beatlemania por conta da fama. Era impossível andar para passear em um shopping e não ser constantemente abordado pelos não-fãs “Ei, o Michael Jackson está aqui, vamos lá vê-lo! Não gosto dele nem tenho os seus discos, quero apenas vê-lo!”, como iria mencionar em sua autobiografia. Durante turnês clássicas como a do disco Arise (1991), era bem comum a presença dos integrantes na porta da casa de shows para atender os fãs, desde autógrafos até mesmo fotografias em uma era analógica. Porém, conforme o tempo iam passando e o sucesso escalonando, esse atendimento foi redirecionado a coletivas de imprensa, tirando um pouco daquela aura de uma banda que de tudo de underground tinha para oferecer.

Era véspera da apresentação da banda no famoso festival Monsters Of Rock, em Donington, no dia 17 de Agosto, quando no quarto de hotel em que estavam, Andreas entrou com uma expressão pálida e totalmente mortificada ao dar a notícia de que o enteado de Max e filho de Glória, Dana Wells havia falecido em um acidente automobilístico. Sharon e Ozzy Osbourne, que eram bem próximos do casal, os ajudaram com a questão do transporte e um jatinho particular que tinham para resolver todas as questões envolvendo o sepultamento do jovem de 19 anos. Quando Christina, irmã de Dana que faleceu recentemente esse mês de Fevereiro desse ano, ligou para o necrotério para saber do corpo do irmão, foi surpreendida com o aviso de que não apenas a “irmã teria removido do prédio o corpo do irmão”, como também, segundo Gloria, uma mulher de um integrante da banda teria entrado em contato com uma amiga, na qual solicitou o início dos serviços para que começassem a trabalhar no corpo. Logo, essa amiga havia telefonado para o escritório do médico legista, dizendo que era a irmã do jovem rapaz, solicitando a retirada do corpo.
Uma vez na ausência de seu frontman, os remanescentes subiram ao palco para performar as músicas, com Andreas assumindo os vocais, ao invés de cancelarem a apresentação. Dedicaram um minuto de silêncio no início após o guitarrista anunciar a ausência de Max por conta da perda familiar, e botaram para quebrar em cima do palco. Não havia sido a primeira vez do grupo como um power-trio, entretanto, antes, já haviam atuado dessa forma quando Cavalera precisou se ausentar por uma infecção no estômago, ou melhor dizendo, uma úlcera, como divulgou em revistas na época. E digamos que comunicação já não era mais o forte ali dentro, um dia após o funeral, os membros haviam se reunido com Max para uma discussão sobre a continuidade dos afazeres e itinerário que ali tinham a prestar, afinal, havia muito dinheiro em jogo, e multas aplicáveis que podiam rolar ao não cumprirem com contratos. Os dois lados estavam bem divididos, um pai”drasto” que junto da esposa estavam desolados, e o outro que sentiam o risco de jogarem tudo por alto e o receio de tudo acabar de um dia pra noite, já cada um tendo uma vida completamente estabelecida.

Em Novembro, a turnê Latino Americana havia chegado, e com isso, shows no Brasil eram uma realidade, tendo dois shows marcados na saudosa casa de shows Olympia, e outro no renomado Imperator, no Rio De Janeiro. Só no Olympia, se esgotou uma capacidade de 4.000 pagantes, a molecada estava ao delírio na época vendo uma multinacional a casa tornando para celebrar dessas raízes sangrentas em São Paulo. Quem abriu foi o Ratos De Porão, que na época divulgava o Feijoada Acidente, tendo como anfitrião, Zé do Caixão e suas diabinhas apresentando a banda que logo subiria ao palco. Mesmo ato foi realizado em 2005 quando a banda, já com outra formação, havia voltado aos palcos do Olympia uma última vez antes do fechamento definitivo do estabelecimento para a celebração de 20 anos de legado do Sepultura.
Naquele mesmo mês, a banda havia lançado uma expansão do disco intitulada The Roots Of Sepultura, que incluía faixas ao vivo, como também alguns B-Sides e também covers, de bandas como os Dead Kennedys, Ratos de Porão e também Os Mutantes. O último grande show, que assim como lançamento desse álbum, foi a canção do cisne para a formação de ouro, aconteceu no Brixton Academy em Londres, no dia 16 de Dezembro de 1996. Se um cisne cantou, eu não sei, muito provavelmente berrou e muito antes da morte, pois conhecendo a ave em questão, nenhuma outra diz para “Detonar essa porra”, dentre outros vocabulários coloridos. Segundo o frontman, havia sido um excelente show, no próprio blog da empresária, alguns anos atrás, ela menciona que Max havia feito um setlist que fosse digno de um fim para a banda.

Naquela mesma noite do show, o contrato com Glória Cavalera terminaria naquele instante. O restante dos membros, completamente insatisfeitos com a gestão, já estavam sendo visitados por empresários aqui e ali no camarim, ou se encontrando com eles. Naquele ponto, ficava claro que péssimas decisões logística e comunicação já tinham sido um prenúncio para o fim. “Tivemos uma puta briga com a Glória em Buenos Aires no dia 14 de Novembro. Foi ali que o Sepultura acabou. Mas decidimos ir em turnê na Europa pra fazer a turnê, tentar manter o Sepultura como algo possível para o próximo ano. Foi uma loucura.” – Andreas para a Louder. E de fato, já tinham não apenas shows marcados para o ano seguinte, como também planos que, segundo a banda, envolviam grande parte de outras localidades do Brasil onde haviam não mais pisado desde que a agenda ficou cumprida aqui e ali.

Uma briga no camarim que terminou em um “Se é assim que vai ser, então vai todo mundo se foder, tô caindo fora”, seguido de um desaparecimento tanto do próprio Max como a empresária do ônibus de turnê que encerrou o capítulo final dessa formação de ouro. Por mais que o próprio vocalista afirme que estava de cabeça quente, toda banda internamente estava desse jeito. Nenhum lado se acertava mais, e sequer a camaradagem ali existia. “Era muita coisa estúpida. Muito drama pra nada. Você chega á um ponto que ao viajar muito, coisas pequenas viram um drama enorme. É que nem em Spinal Tap – todo mundo ficaria maluco por não ter o sanduíche que queria” – Iggor Cavalera para a Louder em 2016.
A situação no póstumo já não era das melhores. Segundo Andreas no documentário Sepultura Endurance (2016) e em algumas entrevistas, principalmente a podcasts em tempos mais recentes, o trio ficou em uma situação bem cabeluda ao se deparar com os desafios financeiros e morais deixados pela gestão da antiga empresa, que consistia em diversas dívidas, desvios de orçamento, e até mesmo ressentimentos, ou “sangue ruim”, traduzido de “bad blood” entre promotores de grandes shows e eventos, além também de outras pessoas aqui e ali do cenário internacional, considerando também como é mencionado que o casal acabou fazendo a caveira deles até mesmo dentro da própria gravadora, que começou a diminuir bastante a verba e até a desacreditar no trabalho do trio, até mesmo quando já tinham arrumado o substituto para a posição vocal, Derrick Green.

Shows como festival Australiano Big Day Out haviam sido cancelados, e a conta ficava cada vez mais pesada. Depois de muitos anos morando no exterior, chegou a um ponto que localmente em Phoenix, segundo os remanescentes, era um tanto insalubre pelo fato de Max e amigos, além da família estarem visitando sempre os mesmos locais. Em 1997 havia um racha, de um lado, Max preparava seu novo projeto musical que se tornaria seu veículo e banda principal, o Soulfly, cujo primeiro disco auto intitulado lançado no ano seguinte bebeu muito da fonte não apenas de Roots, mas também do cenário Nu Metal que crescia com força na segunda metade da década de noventa. Do outro, você tinha o Sepultura, Iggor separado do irmão, junto de Andreas e Paulo Xisto Jr., agora com o vocalista Derrick, vindo de Cleveland, que tinha no currículo a passagem por bandas como o Outface e o Alpha Jerk, um guerreiro da cena underground hardcore norte americana. Haviam lançado o trabalho Against (1998), competindo com o ex-amigo e colega de banda no cenário musical.
Sepultura fez diversos shows para divulgação do trabalho, com elementos de percussão japonesa, incluindo abrir para os shows do Metallica no Brasil em 1999, em Porto Alegre, São Paulo e Rio De Janeiro. O Soulfly chegou a realizar um show em São Paulo no Ginásio Da Portuguesa, que tinha como abertura a banda Claustrofobia em seus primórdios e outra chamada Devotos Do Ódio, vinda de Recife. Show marcado por um público diminuto e problemas de acústica, tendo também um show cancelado em Belo Horizonte, cancelado por falta de procura de ingressos. Na data do show em SP, seria um dia antes de completar dois anos da saída de sua banda original. Um VHS póstumo havia sido lançado em 97′ com a banda apresentando clipes de divulgação para o álbum, como de Roots […] e Ratamahatta.
No mesmo ano, o vocalista interpretou ao lado dos Nação Zumbi Monologo ao Pé Do Ouvido, Da Lama Ao Caos e Territory na edição daquele ano do Abril pro Rock, homenageando Chico Science que havia também falecido no dia 2 de Fevereiro em um acidente de carro. Antes mesmo de sua morte, Monólogo Ao Pé Do Ouvido era cantado por Max em alguns setlists dos shows da turnê do Roots, assim como também Attitude se tornou, após a morte de Dana, uma homenagem ao rapaz que se foi de forma tão abrupta. O videoclipe da música tem a banda tocando em cima de um ringue, tendo a presença da família Gracie, pioneiros do Jiu Jitsu Brasileiro.
“Quando se separaram, o Sepultura estava perfeitamente pronto para se tornar o próximo Metallica. Foi bem triste.” – Sharon Osbourne sobre o crescimento da banda para a autobiografia de Max.
Em 2002, tanto Max quanto a banda de outro lado foram surpreendidos pela Roadrunner lançando sem consentimento dos membros o trabalho ao vivo Under A Pale Grey Sky, que consistia em uma gravação escondida feita pela própria gravadora, já sabendo os rumores do fim devido as tensões nos bastidores, já considerando também a possibilidade de não cumprirem com a cota de discos lançados que o contrato feito em 1988 exigia por parte dos brasileiros quando Max o havia assinado em uma viagem a Nova York para discutir a representação que teriam no exterior por parte de um grande selo/gravadora. Embora seja um bom registro, tem seus problemas de edição, com direito até Max chamando a atenção de uma briga que estava rolando no recinto, ou talvez de um segurança agredindo os fãs, algo infelizmente de costume por parte desses brutamontes estúpidos. Claro que não é nem preciso dizer o quanto a decisão dessa desagradou os dois lados, especialmente o do Sepultura, que já enfrentava descaso dessa há muito e que decidiu deixar devido a péssima representação que tiveram na era pós-Max.

Mesmo anos depois da separação do grupo com o vocalista, o legado permanece forte. Em Março de 2021, o grupo francês Gojira lançou o single Amazonia para o álbum Fortitude (2021), e em relação as comparações com o trabalho dos brasileiros, Joe Duplantier respondeu em uma entrevista ao site Blabbermouth: “Para mim é um elogio. E nós os copiamos, porém não de propósito, a gente só sacou isso logo depois. Ficamos ‘Oh, isso soa como o Sepultura, aaahhh tanto faz’ É um tributo a eles, sabe? É sobre o Brasil, é sobre a Amazonia. É tribal!”. Em termos de autenticidade sonora e até aspectos regionais, é a pura reprodutibilidade técnica, não tem como esperar muito, entretanto, convenhamos, a intenção não apenas é das melhores, já citando o fato de não apenas ser uma música sobre anti-desflorestação e a proteção dos direitos dos nossos nativos, além do ativismo forte dos franceses, como também é uma troca de elogio se tratando de uma banda que foi tão influente em seu auge.
Iggor Cavalera deixou o Sepultura 10 anos depois em 2006 durante a turnê de divulgação do álbum Dante XXI, se reunindo ao irmão para formar o Cavalera Conspiracy, e anos mais tarde, para celebração de 20 anos do lançamento, fizeram shows especiais em grandes festivais e em casas de shows ao redor do Globo tocando o álbum na íntegra. No ano de 2022, os irmãos voltaram ao país, acompanhado de Dino Cazares nas guitarras para tocar o álbum de novo na íntegra, com direito ao Cacique Cipassé fazendo um importante discurso de representação Xavante em cima do palco. Foi um momento incrível, com direito a “elogios” muito bem merecidos ao atual presidiário ex-presidente por parte do público, além do Cacique citar a importância da união e respeito ao próximo.

Com ou sem promessas de reunião, ainda mais nos momentos de reta final da banda, agora com uma formação totalmente diferente, o que importa é o trabalho que se tem em casa, a memória arte visual e também a importância de uma obra que grita orgulho, paixão e raiva para uma audiência que nunca envelhece de espírito, que nasceu teimosa. De tempos divertidos assim, lhes deixo com essa outra memória divertida, de tempos em que a MTV realmente falava sobre música…. antes da virada do milênio e a tentativa furada de agradar uma outra audiência tenha estragado tudo e a tornado um espaço de gente mimada e apática.
Attitude and Respect
O Futuro é Indígena



