Confesso que “Notre-Dame” não é uma música que se entrega de primeira. O novo single de Morrissey parece caminhar devagar, quase como se evitasse qualquer explosão emocional óbvia. Em vez de apostar em um refrão grandioso, ele prefere construir um clima constante, sustentado por teclados frios e uma batida discreta que mantém tudo em suspenso.
Logo na primeira audição, o que mais me chamou atenção foi a atmosfera. Há algo de contemplativo na forma como a música se repete e se dobra sobre si mesma, como se Morrissey estivesse menos interessado em conduzir o ouvinte e mais disposto a deixá-lo perdido dentro desse cenário sonoro. É uma escolha curiosa, porque ao mesmo tempo em que cria identidade, também pode causar a sensação de que a faixa nunca chega a um ponto de virada definitivo.
A voz continua sendo o centro das atenções, mas surge envolta por efeitos que mudam um pouco a percepção do timbre. Não é aquele registro cru que muitos associam às fases mais antigas; aqui, tudo parece mais filtrado, mais distante. Em alguns momentos, isso funciona muito bem, especialmente quando a interpretação ganha um tom quase teatral. Em outros, dá a impressão de que a emoção fica levemente abafada pela produção.
Liricamente, Morrissey aposta em poucas frases, repetidas como um mantra. Essa insistência cria uma espécie de transe melancólico, mas também levanta dúvidas sobre a profundidade do texto. Fiquei com a sensação de que ele quis sugerir mais do que explicar — algo que pode soar intrigante para alguns ouvintes e incompleto para outros.

Também me parece que há um cuidado maior no equilíbrio entre provocação e acessibilidade. O artista continua flertando com temas carregados de significado, mas sem transformar a música em um manifesto direto. É como se ele estivesse testando limites, mas com passos mais calculados do que em outros momentos da carreira.
No fim das contas, “Notre-Dame” me soa menos como uma tentativa de criar um single imediato e mais como um recorte de um Morrissey que prefere explorar atmosferas do que melodias expansivas. Não é uma faixa fácil, nem necessariamente feita para agradar à primeira audição. Mas talvez seja justamente essa postura contida — quase introspectiva — que faça a música permanecer na cabeça depois que termina, deixando mais perguntas do que respostas.



