Em 1991, o cenário do metal já não era mais o mesmo. Bandas de Thrash e Death davam as caras no MTV Headbanger’s Ball, sempre trazendo algo diferente em um cenário que cada vez mais expandia, mas que, porém, vez ou outra, caía em constante repetição. Entretanto, uma curiosa banda mineira que surpreendeu o mundo com um certo disco chamado Beneath The Remains (1989) iria mesclar o melhor desses dois mundos quando se trata dos subgêneros citados anteriormente.

Aos poucos ganhando a confiança da Roadrunner Records, o Sepultura conseguiu um feito e tanto ao levar a energia do metal extremo brasileiro para o mundo, algo um tanto inimaginável quando uma elite dominante no país representava nossos produtos de exportação baseados sempre nos mesmos clichês. Embora o grande sucesso, o choque de realidade ao excursionar em países estrangeiros confirmava o senso comum sobre a visão limitada que tinham sobre nosso país. “Nós descobrimos que as pessoas tinham uma visão esquisita e limitada sobre o Brasil” relembra Andreas Kisser relembra à Rolling Stone. “Achavam que era tudo sobre florestas, praias e garotas. É claro, temos todas essas coisas, mas também tínhamos violência policial, além de termos passado por uma ditadura. Então, escrevíamos letras sobre nossa realidade. E mesmo tocando musica agressiva inspirada em bandas europeias e americanas, adicionamos o ‘groove’ brasileiro porque fazia sentido para nós”.

Liricamente, essa mesma realidade era estampada de forma que fizesse sentido com o som brutal que o disco Arise carregava. Na faixa-título, Max Cavalera relata em forma de pura angústia a visão apocalíptica de um mundo fadado a uma excruciante decadência, na qual a história sempre tende a se repetir em um museu de grandes novidades. Segundo o ex-frontman, seria puramente baseado em como a religião e as guerras estavam nos levando a um completo ciclo de autodestruição. Ele também aponta o álbum War (1983) do U2 como uma inspiração. Na época, o mundo presenciava a Guerra do Golfo e, um ano após, Los Angeles seria palco de uma revolta caótica após o ato de brutalidade policial contra Rodney King.
É curioso como muitos anos depois a história teria se repetido no caso de George Floyd e, com o passar das décadas, diversos outros conflitos armados tomariam conta dessa realidade caótica, acelerando principalmente o relógio do juízo final de forma assustadora. Em Dead Embryonic Cells, Max ilustra de forma metafórica que o ouvinte já é predestinado ao eterno infortúnio ao nascer, ainda quando o futuro é traçado pelos juízes do apocalipse que estão no poder. Kisser também se aprofunda no tema em Desperate Cry, expondo situações aterradoras como a explosão do reator RBMK de Chernobyl. “Acho que a explosão foi um grande exemplo de estupidez. É sobre uma situação na qual você não tem controle, nem culpa e nem como ser julgado — é vítima de uma circunstância”, diz o guitarrista também à entrevista de 2018 para Kory Grow, na Rolling Stone.
Altered States é uma curiosa contribuição de Andreas, inspirado no filme de 1982 com o mesmo título (“Viagens Alucinantes”), no qual reflete como drogas alucinógenas mudam sua percepção e afetam drasticamente o juízo. Faixas como Substraction e Infected Voice eram uma representação crítica ao modelo tanto invasivo quanto incisivo da indústria musical de colocar o artista ou banda na linha, seja manipulando resenhas e entrevistas ou até mesmo fechando portas. Não era de se surpreender, especialmente por serem uma banda estrangeira, vinda da América Latina. Era notório aos próprios músicos um bairrismo existente, especialmente porque, de início, raramente eram capa das revistas especializadas.
Foi produzido e inicialmente mixado por Scott Burns no Morrisound, estúdio na Flórida que foi a casa das ideias de outras bandas clássicas da cena local, como Morbid Angel, Obituary e o saudoso Death. Musicalmente, a banda ainda mantém o ritmo acelerado em momentos específicos, pois, ao priorizarem o groove, o álbum acaba ganhando uma textura bem cadenciada, mostrando uma melhor habilidade técnica adquirida desde que Andreas entrou no grupo. Entretanto, as decisões da gravadora sobre o produto final criou uma situação bem longe de ser amistosa entre banda e o produtor. “Quando Scott Burns terminou a mixagem, não achei que estava á altura do que esperávamos”, relata o ex-vice-presidente sênior da A&R (artistas e repertório) da Roadrunner, Monte Conner. “Depois de ir a Tampa e tentar, sem sucesso, ajustar a mixagem com Scott, decidi chamar Andy Wallace para remixar o álbum”.

Mesmo com o conflito de interesses, Conner conseguiu, durante o período em que a banda estava realizando um show no Rock In Rio, realizar ao lado de Andy as mudanças no produto final que expressassem os desejos da banda. Segundo o executivo musical, admitiram que tinham tomado a decisão correta ao trazer Wallace tanto para a produção como para a mixagem. Havia toda uma expectativa em cima, especialmente por já estarem dando o que falar aqui e ali. Hoje em dia, a mixagem original de Desperate Cry pode ser ouvida nas edições com material bônus do álbum.
Escolheram novamente Michael Whelan para trabalhar em cima do conceito da capa. A visceral ilustração, na qual mostra um conglomerado em ruínas, quase teve, no lugar do cérebro, um ovo. Segundo o ilustrador, ao defender a ideia para o vocalista, seria um símbolo religioso que significava o nascimento do mundo, e por isso, havia-o desenhado. Propôs, então, um cérebro no lugar, alinhando-se à estética esperada de uma capa de disco de metal. E faz todo sentido, especialmente se associarmos como as estruturas desse mundo devastado já moldam mentes fadadas ao apocalipse conceitual presente no conteúdo lírico.

Billy Henderson trabalhou com os rapazes nos videoclipes de divulgação. Para Dead Embryonic Cells, gravaram algumas das cenas em ruínas indígenas localizadas em Montezuma Castle, uma cratera repleta de rochas vulcânicas. Em Arise, um conceito morbidamente curioso foi sugerido pelo diretor, persuadindo-os a gravar em um pequeno esconderijo no deserto que foi nada mais e nada menos que um refúgio da Família Manson, localizado no Vale da Morte, California. Os três figurantes ficaram de seis a oito horas pendurados na cruz, vestidos como Jesus Cristo, trajando máscaras de gás, e a sensação térmica local era bem variante, com calor extremo pela manhã e frio constante durante a noite. Todos eram fãs e acabaram recebendo itens autografados. Entretanto, quando as condições citadas sobre a filmagem, que iam desde o conceito até mesmo o histórico do local de filmagem, chegaram ao conhecimento da gravadora, quase tiveram um ataque cardíaco, segundo Max em sua autobiografia, My Bloody Roots.
“Sabíamos como era chocante, e por isso que o gravamos: queremos balançar algumas pessoas, entrar em suas mentes e fodê-las um pouco”.

Meses antes do lançamento, começaram a promoção do trabalho que chegaria às prateleiras dois meses depois com o primeiro show da banda na segunda edição do festival Rock In Rio. No dia, o line-up do Dia do Metal era composto pelos brasileiros abrindo para nomes nem um pouco conhecidos como Queensrÿche, Megadeth, Faith No More e os deuses do metal Judas Priest. Apenas levaram um público de 120 mil pessoas e nada mais. Brincadeiras à parte, mesmo sob um infernal calor carioca de 49 graus, foram constantemente ovacionados por um público que clamava não apenas por peso, mas também por algo que os surpreendesse, e eles eram os novos rockstars do momento.
Porém, as coisas não saíram tão bem para a atração seguinte, o Lobão, que, convenhamos, foi uma péssima escolha para aquela escalação já definida. Foi vaiado, e também a ideia de subir como um soldado em cima do palco apenas pelo estilo se associar de certa forma com o gênero soou mais como forçação de barra relativa à de peças publicitárias atuais que tentam desesperadamente engajar com o público jovem, especialmente as do governo. Fica a critério de você, leitor, a seguinte pergunta: ingenuidade ou espírito de porco da produção?

Um pouco antes, também, assim que terminaram as gravações, iniciaram uma turnê com as bandas Sadus e Obituary, a famosa SOS Tour, na qual o nome dado era referência às iniciais de cada uma das envolvidas no itinerário. Após mesmo o lançamento, os shows começaram a lotar cada vez mais e, de fato, já pareciam estar vivenciando um sonho. Quando voltaram ao Brasil, por sugestão do amigo Alberto, que possuía uma loja que vendia produtos da marca de roupas voltada a skatistas, a Vision, fizeram um show gratuito que foi sediado na Praça Charles Miller. Com licença da prefeitura e um bom dinheiro injetado na empreitada, 50 mil pessoas fizeram parte daquele dia histórico, porém, fatídico. Era bem comum que skinheads, ou melhor dizendo, boneheads que sujam a imagem antirracista original do movimento, invadissem shows e estragassem a diversão da plateia naquele tempo, e não demorou muito para que fosse o caso de esse evento ser vítima de um atentado estarrecedor, que foi um prato cheio para a mídia difamar ainda mais o grupo. Um fã teria sido assassinado por um membro daquele meio, segundo relatos, e conseguiu fugir; nunca foi pego.

A tragédia começou a ter os fatos do dia distorcidos pela imprensa, citando até mesmo que o próprio grupo mineiro tivesse promovido violência e comportamento errático entre os jovens. Foi um episódio que deu dor de cabeça aos envolvidos, com a banda parando o show na metade do setlist. Iggor Cavalera se pronunciou, por meio de um discurso inflamado e histórico, pregando a paz nos shows de rock e metal do país após terem ciência dos acontecimentos: “Queria que todo mundo visse esse show, meu, sem uma forma de violência. Com muita paz aqui. Somos uma banda que prega a paz, não a violência, nem guerra, nem nada dessas bostas, falô?!”

Porém, nesse mesmo dia, a MTV gravou a versão ao vivo do cover de Orgasmatron, da lendária banda Motörhead, que foi premiada logo depois. Em uma festa promovida pela própria em Los Angeles, ninguém menos que James Hetfield, do Metallica, se aproximou do vocalista e disse ter adorado o videoclipe de Dead Embryonic Cells. Se o reconhecimento entre os ídolos dos garotos era um gás de validação que comprovava o valor de todo o esforço, é de se considerar que nem mesmo as mazelas dos membros passariam despercebidas. Digamos que os atos derivados da bebedeira pelo frontman chegaram até mesmo a irritar Lemmy Kilmister durante uma sessão de fotos. Simplesmente pegou uma garrafa de vinho tinto na mesa do músico e, ao sacudir loucamente a bebida, acabou sujando as câmeras e sua jaqueta.
E talvez, um dos casos mais conhecidos seja durante a turnê em suporte ao Ministry em 1992, nos bastidores de um show em Seattle, onde teriam como convidados ninguém menos que duas bandas oriundas, como Soundgarden e Pearl Jam, dentro do ônibus de turnê em que Max teria entrado de penetra e começado a se enturmar com as pessoas. A questão é que não demorou muito para que caísse novamente as graças da bebedeira, e causasse uma situação desconfortável a Eddie Vedder, que ao estar sentado ao lado, cujas pernas acabaram tendo um toque especial do beberrão com um creme rejuvenecedor chamado vômito. Embora a situação fosse embaraçosa, foi compreensivo e deu um autógrafo para o alcoolizado que tinha pedido para sua irmã mais nova, que era fã de sua banda.

Foram uma das bandas de suporte da No More Tours de 92, que supostamente seria o primeiro ato de aposentadoria de Ozzy Osbourne, dividindo palco com outra banda de Seattle, os Alice In Chains, um line-up histórico para todos os presentes. Em um show em Jacarta, na Indonésia, tiveram uma recepção digna de beatlemania ao tocarem em um estádio com um público presente que variava de 12 até 15 mil pessoas. Tanto era o reconhecimento que, por questões de pura logística, tanto profissional como pessoal, fez os membros se mudarem de São Paulo, onde estavam desde o início da década, para viverem em Phoenix, Arizona. Na época, Max iria se casar com a então empresária Glória Cavalera, estando grávida do filho Zyon, algo que mudaria a dinâmica entre os membros nos tempos que estavam por vir.
Arise teve certificado Prata no Reino Unido, estando na posição 40 das paradas britânicas (OCC) e como número 119 na Billboard 200 dos Estados Unidos. Foi o terceiro álbum da banda a receber também um lugar no Hall of Fame da revista Decibel. Durante a era, teve alta rotatividade em publicações de outros veículos, como a Kerrang!, Rock Hard e Metal Forces. O VHS “Under Siege (Live In Barcelona)”, lançado em 1992, mostrou um dos melhores shows ao vivo documentados da banda, intenso, extremo e hipnotizante, um caos sonoro e visual que tem prestígio dos fãs da Era Max até hoje. Naquela altura do campeonato, nada poderia parar a força motriz que representava o país para as massas. Em 1993, entretanto, mais uma vez, iriam redefinir as regras do jogo com outro lançamento que iria mostrar um pouco mais da sua identidade nacional aos gringos… O resto é história.



