A dificuldade de ler o livro “Almoço Nu” de William Burroughs se dá por diversos fatores e causa um grande incômodo. Se você não está acostumado com uma narrativa cortada e picotada, se perde fácil no enredo. A verdade é que Burroughs escreveu o livro propositadamente assim. A ideia é que a narrativa não siga uma linha temporal, permitindo ao leitor ler qualquer um dos capítulos em qualquer ordem.
Sabendo da vida pregressa de Burroughs, pode-se entender a linha tênue do estilo da escrita e da história. É onde a fantasia beira o bizarro, mas flerta perfeitamente com o onírico. Ela borra o universo da realidade com a não-lógica do pensamento adicto do autor, onde tudo é totalmente desconexo, refletindo, portanto, o delírio de uma mente cheia de drogas. Percebe-se também, conhecendo a jornada do autor, que este é um livro meio autorretrato. Da mesma forma que ele borra a realidade com situações e mundos insanos, sabe-se que o autor viveu muito do que ali está escrito.
Esse universo criado pelo autor foge de qualquer realidade, embora nasça de uma brutalidade bem real. Baseado nos seus anos de vivência fugindo da lei nos Estados Unidos, o trauma cravado no México e o auge do seu vício na anárquica Tânger, no Marrocos (até chegar a Paris, onde a obra tomou forma), a ambientação é frenética. Não é gratuito que a Interzone surja como uma espécie de zona franca do pesadelo, um lugar onde a lei existe como ruído, como ameaça e como um vulto que muda de forma conforme a conveniência de quem manda.
Para dar liga a essa loucura, acompanhamos o alter ego do próprio autor, o Agente William Lee. Ele é o nosso guia anestesiado por esse pesadelo, fugindo da polícia em uma jornada que o leva de Nova York à alucinatória e grotesca Interzone, uma versão distorcida, alucinógena e sem lei de Tânger. O mundo que Lee atravessa é populado por médicos sádicos, como o infame Dr. Benway, criaturas bizarras, insetos gigantes e burocratas alienígenas. O enredo, na prática, é a própria fuga de Lee e sua submissão química, servindo como uma viagem aos recônditos mais sombrios da degradação humana.
E é aqui que o livro deixa de ser só sobre drogas e começa a ficar claramente sobre regulação. Burroughs não trata autoridade como uma pessoa ou um ditador com nome e sobrenome. Ele trata autoridade como um mecanismo, um conjunto de métodos, rotinas e discursos que se infiltram no corpo e na cabeça. É um controle que não precisa gritar, porque já opera por dentro. O Estado, ou o que quer que faça o papel de Estado ali, não aparece como ideal político, mas como prática suja de gerir medo, desejo e vício.
A burocracia, nesse sentido, vira uma camuflagem elegante para o que é indecente. O Dr. Benway sintetiza esse truque do poder ao dizer que “a necessidade nua dos viciados em controle deve ser decentemente coberta por uma burocracia arbitrária e intrincada, de modo que o sujeito não consiga contatar seu inimigo diretamente”. É quase uma confissão: não se controla apenas com armas e grades, mas com formulários, protocolos e camadas de intermediários. A violência deixa de parecer violência para virar procedimento.
Quando o livro insiste tanto em dependência e compulsão, ele não está só narrando uma degradação individual, está desenhando um modelo político. Aqui o vício funciona como método e metáfora, pois quem depende, obedece. O próprio Benway, como espécie de técnico da dominação, vira o retrato dessa engenharia social, sendo descrito como “um manipulador e coordenador de sistemas de símbolos, um especialista em todas as fases de interrogatório, lavagem cerebral e controle”. Nessa chave, o controle não é apenas repressão, é programação.
Como se não bastasse, toda essa jornada é coberta por escatologia, violência psíquica, abuso de drogas e sexo sem nexo. Cada um desses pontos tem uma linha de ideia única que amarra toda a história: a opressão e a manipulação governamental através das ferramentas supracitadas. Não é choque pelo choque. É choque como evidência, como quem esfrega na cara do leitor os instrumentos sujos que sustentam uma ordem supostamente limpa.
Na superficialidade da obra estão os problemas em relação às drogas e à psiquê de um junkie, assim como a homossexualidade e a amoralidade escancaradas, apresentadas para chocar a sociedade conservadora de 1959, ano de lançamento do livro. O choque foi tão absoluto contra o moralismo de margarina e a paranoia da Guerra Fria dos anos 50, que a obra não apenas incomodou, mas foi banida e julgada por obscenidade nos tribunais americanos, desafiando o sistema com sua total falta de pudor.
Diante de toda essa alucinação sobre controle, censura e poder, seria então “Almoço Nu” um livro proto-distopia? Se a distopia clássica costuma mostrar um futuro organizado pela vigilância e pela norma, Burroughs parece operar num lugar anterior e talvez mais honesto. Ele não imagina um amanhã, ele revela um presente em decomposição, onde o controle não depende de ordem, e sim de contaminação. Em vez de uma sociedade perfeitamente disciplinada, temos uma sociedade perfeitamente administrada pelo vício, pela burocracia e pela linguagem que justifica tudo.




