O Monsters of Rock, desde 1994, consolidou-se como uma espécie de templo do heavy metal no Brasil especialmente para o público paulistano. Mais do que um festival, tornou-se um refúgio para os órfãos do Rock in Rio realizados em 1985 e 1991, mantendo viva a chama de um gênero que sempre encontrou aqui terreno fértil. Ao longo das décadas, construiu sua reputação trazendo nomes de peso como Kiss, Ozzy Osbourne, Iron Maiden, Slayer, Megadeth, Judas Priest e Scorpions, uma curadoria que, por si só, explica sua relevância. Em tempos mais recentes, a aposta em gigantes como Guns N’ Roses e Lynyrd Skynyrd reforçou essa tradição.
Ao longo dos anos, tive a oportunidade de acompanhar quase todas as edições, com exceção de 2023. E se há algo que merece destaque constante é a organização. Um padrão que não deve nada aos grandes festivais internacionais. O evento deixou de ser apenas uma data no calendário e passou a ocupar um espaço quase ritualístico na vida do fã de rock, algo reforçado pela sequência de edições em 2025 e 2026.
A edição de 2026, realizada em 4 de abril, às vésperas da Páscoa, aconteceu sob um clima curioso, ou seja, uma cidade mais calma do que o habitual e condições perfeitas para um dia longo de música.
A estrutura impressionou. O palco, com telões de LED em formato quase semicircular, elevou o nível da experiência visual, abandonando de vez os padrões ultrapassados como por exemplo, das telas planas e projeções muito aquém dos festivais. A distribuição dos espaços, áreas interativas, pontos de merchandising e infraestrutura de apoio mostrou um evento maduro, que entende seu público. Mesmo nos momentos de maior fluxo, as filas se mantiveram dentro do aceitável um detalhe que faz diferença.
Minha chegada ao festival foi calculada, ou seja, sabia que perderia as duas primeiras bandas. Assim, encarei o show de Yngwie Malmsteen como o verdadeiro início do meu dia. A expectativa, no entanto, era cautelosa. Setlists recentes indicavam um caminho não muito empolgante, e a divisão dos vocais com Nick Z. Marino levantava algumas dúvidas.

O início com “Rising Force” sugeriu algo promissor, mas rapidamente deu lugar a um desfile excessivo de técnica (fritação) e uma enxurrada de solos e trechos instrumentais que, embora impressionantes do ponto de vista técnico, careciam de propósito. Clássicos surgiam fragmentados, quase como pretexto para mais exibição. Até mesmo o cover de “Smoke on the Water” soou deslocado. No fim, uma apresentação que flertou mais com a autoparódia do que com a celebração da própria obra. Eu dizia para mim mesmo e para as pessoas que estavam comigo, com tantas músicas fantásticas de álbuns como Odissey, Marching Out, The Seventh Sign e Facing The Animal, ele preferiu a fritação, ou seja, um tiro no pé, aliás, nos dois pés. A apresentação simplesmente foi morna e irritante.
O Halestorm, por outro lado, trouxe um sopro de renovação. Mesmo para quem conhecia pouco, bastaram poucos minutos para entender o impacto da banda. Lzzy Hale domina o palco com naturalidade, sua voz alterna potência e controle com facilidade, sustentada por uma presença carismática. Músicas como “I Miss the Misery” e “Love Bites (So Do I)” funcionaram como pontos de conexão imediata com o público. Há ali um potencial evidente de crescimento. Uma banda que transita bem entre o público metal e alternativo e pode, com facilidade, ampliar seu alcance.

Mas foi com o Extreme que o festival atingiu seu primeiro grande ápice. Mesmo sob chuva, a banda entregou um show vibrante, técnico e, acima de tudo, envolvente. A abertura com “It (‘s a Monster)” e “Decadence Dance” estabeleceu o tom com precisão aliada a energia. Clássicos como “Get the Funk Out” e “More Than Words” surgiram com naturalidade, sem parecerem obrigatórios. Nuno Bettencourt, em especial, merece destaque absoluto, um guitarrista que alia virtuosismo e musicalidade de forma rara, sem cair na armadilha dos excessos. Hoje, na minha opinião, seu nome figura com tranquilidade entre os melhores da atualidade assim como Jerry Cantrell e Zakk Wylde. Enfim, para que essa exibição tivesse sido perfeita, faltou apenas a maravilhosa “Rest In Peace”, um pecado, mas compensado pelas ótimas e pesadas faixas do último álbum, “#Rebel” e “Rise”.

Após a apresentação do Extreme, pausa para recompor as baterias e se preparar para um dos shows mais esperados da noite, não a banda, mas sim a entidade Lynyrd Skynyrd. Formada em 1964, em Jacksonville, na Flórida, a banda tornou-se uma das principais referências do southern rock. Com uma trajetória marcada por tragédias que resultaram em mortes, principalmente a do vocalista fundador Ronnie Van Zant, a banda se transformou em um legado da família Van Zant, algo que inexplicavelmente transcende a própria música.
Embora a banda hoje não conte com nenhum membro original da formação que gravou os ótimos álbuns dos anos 70, essa entidade simplesmente celebrou, nesse show, mais de 50 anos de sucesso dessa incrível trajetória. Com uma apresentação irretocável, o setlist focou nos hits, sobretudo dos discos “(Pronounced ‘Lĕh-‘nérd ‘Skin-‘nérd) (1973)”, “Second Helping” (1974) e “Streets Survivors” (1977). O repertório contou com a emocionante “Tuesday’s Gone”, em tributo a Gary Rossington, falecido em 2023, com um show de lanternas acesas em todo o estádio.
Também não faltou a linda e reflexiva “Simple Man”, com direito à bandeira do Brasil projetada no telão e todo mundo cantando em uníssono. O clássico “Sweet Home Alabama” levantou o público e conduziu para o encerramento, porém o clímax emocional ainda estava por vir.

Com as luzes apagadas, veio os primeiros acordes do clássico “Free Bird”. Um momento indescritível. Qualquer palavra que eu use aqui, não conseguirá reproduzir o que foram aqueles minutos de emoção. O telão exibindo a lista com todos os nomes dos integrantes que já partiram, representados com uma vela acesa sob cada nome e, nesse momento, Johnny Van Zant, o irmão mais novo, deixa o chapéu do falecido irmão mais velho no pedestal e sai de cena para permitir que ele conduza a música através de voz pré-gravada, como um gesto de respeito por quem de fato foi, é e sempre será o vocalista dessa entidade que se chama Lynyrd Skynyrd. O show chegou ao fim com Johnny retornando ao palco, empunhando uma bandeira que mesclava as cores do Brasil e dos EUA.
Simplesmente, um daqueles instantes em que o espetáculo deixa de ser entretenimento e se transforma em experiência.
Com a alma lavada, precisei fazer um pitstop para no final retornar e conferir o show mais aguardado da noite.
Pontual como prometido, o Guns N’ Roses subiu ao palco sem atrasos, algo que, por si só, já quebra antigos estigmas. “Welcome to the Jungle” abriu os trabalhos com força, e o que se seguiu foi um show consistente.
Axl Rose, dentro das limitações naturais do tempo, entregou uma performance honesta. A discussão sobre sua voz já não faz mais sentido, ele encontrou formas estratégicas de adaptação, e a banda funciona bem dentro desse equilíbrio. O setlist trouxe boas surpresas, fugindo do óbvio em alguns momentos e resgatando faixas menos exploradas, como por exemplo “Dead Horses”, “Bad Obssession”, “Bad Apples” e “Double Talkin’ Jive” todas do álbum Use Your Illusion I, passando também pelas novas “Nothin” e “Atlas” além dos covers “Slither” do Velvet Revolver, a surpreendente “Junior’s Eyes” do Black Sabbath e “New Rose” do The Damned cantada pelo multifacetado baixista Duff McKagan.

Já Slash segue sempre como um pilar seguro, preciso, essencial. Ainda assim, os excessos instrumentais (fritação) em certos trechos quebraram um pouco o ritmo, especialmente para um público menos paciente e imediatista. Eu, particularmente, achei completamente desnecessário, mas entendo que a intenção tenha sido dar um pouco de fôlego ao Axl ainda mais depois da pancada no queixo que ele tomou do Slash logo no início do show. rsrs
Na reta final, os clássicos cumpriram seu papel, “Sweet Child O’ Mine”, “Estranged”, “November Rain” e “Paradise City” garantiram o fechamento esperado.
No fim das contas, o saldo foi bem positivo para o Guns n Roses e para o público que realmente gosta da banda. Quem torce o nariz para o Guns N’ Roses dificilmente vai mudar de opinião, mas uma coisa é certa, não é qualquer banda que lota os estádios e continua relevante na cena.
Independentemente do clima, o rock segue imune ao desgaste do tempo e o Monsters of Rock comprova que sua força não apenas resiste, como se reinventa com uma vitalidade que desafia gerações.









Para mim a grata surpresa do festival foi o Halestorm. Lzzy Hale – fora a beleza, digamos “selvagem” – roubou a cena com uma entrega total no palco, cantando muito e tocando idem. Skynyrd é time que sempre vence. Já o Guns, confesso que esperava um pouco mais (dentro das limitações, como você muito bem pontuou). O Extreme fez um show na média, no que esperava. Belo show. Os demais foram de mornos a frios. No final valeu muito a pena comparecer, sobretudo por encontrar o amigo Luppe e sua namorada. Parabéns pelo texto!