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Histórias

A música que David Bowie tentou dar (e ninguém quis)

Luis Fernando Brod
Luis Fernando Brod
10 de julho de 2026 5 min de leitura
David Bowie - Capa de Suffragette City
Foto: Divulgação

Existem poucas imagens mais fascinantes no rock do que a de um compositor no auge de seu talento tentando se livrar de uma de suas melhores criações. David Bowie fez isso mais vezes do que se imagina. Antes de “All the Young Dudes” se tornar o hino que salvou o Mott the Hoople da dissolução em 1972, ele já havia tentado presentear a mesma banda com outra joia: “Suffragette City”.

O baixista Pete Watts recebeu a demo diretamente de Bowie. Um mês depois, educadamente, recusou. A justificativa era simples e direta: a música não parecia se encaixar no som da banda. E, olhando em retrospecto, Watts provavelmente estava certo. O rock nervoso e urgente de “Suffragette City” já carregava a assinatura inconfundível de Ziggy Stardust, o alter ego alienígena que Bowie vestia naqueles anos. Era uma peça que exigia a persona certa para ganhar vida.

Diante da recusa, Bowie fez o que qualquer artista faria: lançou a faixa por conta própria. Ela foi para o lado B de “Starman”, um single de apelo comercial indiscutível, e ocupou a penúltima posição no álbum “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars”. Na sequência do disco, “Suffragette City” funciona como uma explosão controlada de energia, elevando tudo ao máximo antes do desfecho sublime de “Rock and Roll Suicide”. É o momento em que Ziggy parece olhar nos olhos do público e desafiar o mundo.

Bowie não era de desperdiçar canções, mas também não era de insistir quando sua visão não era correspondida. O mesmo aconteceria anos depois com “Golden Years”, escrita na esperança de que Elvis Presley a gravasse. Dá para entender o raciocínio: o estilo que Elvis explorava na metade dos anos 1970 combinava com a atmosfera da faixa. Mas é impossível imaginar alguém além do próprio Duque Branco Magro, imerso na estética cocaínica da época, entregando aquela interpretação.

Houve também o período fértil em que Bowie escreveu material para Iggy Pop no início de sua carreira solo. “China Girl”, “Lust for Life” e “Nightclubbing” nasceram da mesma parceria criativa, com Bowie nos créditos de composição. Mas “Suffragette City” tinha um destino diferente: ficar com ele, mesmo que ele parecesse não dar o devido valor.

Foi apenas em 1976, quatro anos após seu lançamento original, que “Suffragette City” recebeu um tratamento mais digno. Bowie a incluiu como single promocional da sua primeira coletânea de maiores sucessos, “Changesonebowie”. O lançamento, porém, veio sem alarde e sem o peso de uma campanha de divulgação. A música mal ultrapassou o Top 50 no Reino Unido, único país onde foi oficialmente lançada como single.

O curioso é que, décadas depois, “Suffragette City” se consolidou como uma das faixas mais queridas do repertório de Bowie, um verdadeiro favorito dos fãs e um prenúncio involuntário de todo o movimento punk que viria a seguir. O rock sujo, direto e desafiador que ela carrega parecia antecipar uma revolução musical que ainda estava por vir. Bowie, talvez sem perceber o que tinha em mãos, simplesmente seguiu em frente. E o tempo, como sempre, tratou de corrigir a injustiça.

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