Entrevista | Black Pantera
O Black Pantera é uma das grandes revelações do rock nacional, com sua potência e seu forte posicionamento. A banda se apresentou recentemente no palco Sunset do Rock in Rio e, ao lado da Nervosa, incendiaram a plateia, literalmente pondo a casa abaixo com seus set e ambas apoiadas por lançamentos recentes. No caso do Black Pantera, Continental foi lançado ainda em agosto, um disco que sintetiza tudo aquilo que há de mais reconhecível no som da banda: peso, conteúdo e posicionamento!
Abaixo, nosso colaborador Rogério Carnaúba do perfil Vitrine Viva 86 falou com a banda e eles comentam sobre seu novo álbum.
2026 está sendo um ano bem corrido para o Black Pantera; teve o álbum ao vivo gravado no Circo Voador e agora chega Continental. Descansar definitivamente não está nos planos de vocês, né?
“Acho que a frase do Dead Fish em A Urgência, a urgência em estar vivo, define bem o que a gente vive também. Sim, a gente lançou Resistência no começo do ano, mas o Continental já estava gravado, a gente também gravou em janeiro, e a gente gosta sempre de estar aí um passo à frente nesses projetos, em tudo que a gente pensa. O Continental está rolando, mas a gente já está pensando no futuro, que a gente vai vivenciar esse tour dele, quer tocar essas músicas ao vivo, mas com certeza já estamos vislumbrando o que vem depois, já planejando. Sempre foi assim.”
Continental é o quinto álbum de estúdio da banda e chega depois de Perpétuo. Olhando para a trajetória de vocês, dá para dizer que esse disco continua de onde o último parou? Essa era a ideia desde o começo?
“Acho que sim, acaba que cada disco é essa continuidade. Perpétuo, a gente enveredou por um caminho com mais medo do que a gente teve quando gravou Continental. Porque do Ascensão para o Perpétuo, a sonoridade destoa muito. A gente trouxe mais melodias, a gente tem Tradução, Candeia e Perpétuo, a faixa título também, que ganharam o coração de várias pessoas e elas mostram uma outra cara da banda. Então sair do Ascensão super hypado e mais pesado e cair nesse lugar foi um desafio. Mas a gente entendeu que poderia ser feito e acho que é isso. Continental vem para esse lugar, a gente continua soando pesado, tem faixas aí pesadas, rápidas, mas a gente tem várias faixas que exploram, continuam explorando essa questão melódica, essa questão lírica também, essa questão ancestral. Então acho que com certeza é isso. Todos os discos até aqui nos trouxeram até o Continental.”

Para quem ainda não conhece o Black Pantera e vai ouvir a banda pela primeira vez, qual faixa de Continental vocês indicariam para começar?
“Ah, eu indicaria Quando Canto, de cara, Quando Canto, é uma faixa que é pesada mas transita também por um blues, tem até um que de pop, tem a voz da Sandra de Sá, assim, cantando uma letra 100% nossa, um arranjo nosso, ela quis gravar porque a gente já tinha gravado a música, ela quis por a voz dela, então, acho que quando canto ilustra bem. Velho Jeans, além das pedradas… Acho que Continental uma faixa que mostra bem bem ao que o Black Pantera veio, assim como Serotonina, ah, o disco inteiro, o disco inteiro eu acho que ele merece ser ouvido de faixa a faixa.”
Uma coisa que chama a atenção é que vocês continuam apostando em álbum completo e até mantendo o CD físico. Hoje, quando muita gente prefere lançar apenas singles, por que o Black Pantera ainda acredita na força de um disco completo?
“É que a gente vem desse lugar, década de 90, moleques. Eu lembro, o primeiro vinil que eu tenho noção, assim, de ter em mãos foi o Cabeça Dinossauro do Titãs, eu achava aquilo incrível. Além dos discos do Michael Jackson, que minha mãe sempre teve, do Jackson 5, e, pô, é um prazer ter um vinil, ter um CD também. Essa era do CD a gente já acompanhou, eu lembro que conforme fui crescendo, com 16, 17, eu comprava meus CDs, eu tinha vários CDs das bandas que eu gostava, e as pessoas gostam.
Há um tempo de retomada em relação a isso também, você vê que o mercado teve esse boom, né, o vinil é a mídia física mais vendida do planeta. De volta, então, assim, acho que, para além de souvenir, traz a questão da nostalgia e é bonito, né, você ter um material em mãos. É legal ouvir no digital, às vezes você tá, voando, você tá viajando, você consegue ouvir do seu celular, mas ter em casa aquele material, você conseguir ler as letras, eu sempre achei muito, muito incrível. Acaba acompanhando também os fãs também.”
Quando vocês anunciaram os feats de Continental, fiquei bem curioso para ouvir o resultado. O que essas participações representam para vocês e como foi escolher cada artista que está no disco?
“Bom, a gente gravou o disco inteiro, a gente tinha as 17 faixas. A gente grava, sempre gravamos os três, tanto que o Perpetuo não tem nenhum feat, praticamente, e a gente ouvindo o disco, a gente falou, acho que caberia uma voz aqui. A Duquesa, por exemplo, ela é citada na letra de Serotonina, e aí vem desse lugar, a gente citou você na letra, e ela “eu quero ouvir”, e aí ela quis dar a participação dela, a parte dela da frase, depois daquele poema que ela entoou no meio da música, que também super colou. O Derek, quando a gente ouviu o Obsoleto, a gente falou, cara, o Obsoleto tá muito a cara de Bad Brains, que o Derek gosta muito e de repente, a gente podia chamar ele, ele aceitou de primeira. Ele ouviu, aceitou, a Sandra também foi o mesmo caso, ela ouviu a música e quis gravar imediatamente, assim como o Chico.
Então assim, o Continental é um disco imenso, mas ele é plural, ele é diverso, e cada uma dessas vozes trouxe essa dimensão de que estamos falando. Falando de um lugar gigantesco. São várias regiões. O Dereck vem de fora do país, mas a Duquesa da Bahia, o Chica é do Paraíba, a Sandra do Rio, nós somos de Minas, então assim, essa ideia de Continental é para além do contexto, para além da parada territorial, mas também a questão da língua, do pluralidade e diversidade desse Brasil gigantesco.”
O som do Black Pantera sempre teve peso e agressividade, mas Continental parece trazer algumas músicas mais acessíveis e palatáveis para quem não está acostumado com um som tão pesado. Vocês acham que isso pode fazer a banda chegar a um público ainda maior?
“Acho que sim, com Tradução foi dessa maneira. Tradução foi a primeira música tocou em várias rádios, ainda tocam em algumas rádios no país, e a gente sabe que outras faixas vão tocar, né, do Continental. Já começa uma conversa com o Banzo, acho que Velho Jeans, então… e essas músicas elas não são feitas pensando nessa proposta de que ah, nós temos que fazer no som, mas tirar um pouco do peso, pisar no freio, não, essas músicas vêm dessa maneira, desse lugar também, da gente trazer o que a gente está sentindo. Nós também temos sentimentos, a gente também passa pelos nossos perrengues aqui, e às vezes a música vem nesse lugar, né, a arte, ilustrando todos esses sentimentos. Isso acaba, como querendo ou não, trazendo sim outras pessoas a falar… tem esse estilo, não vai ter uma banda pesada… Nossa, aí às vezes houve o Banzó, ouve Velho Jeans e aí vai pensar ‘poxa, que legal, gostei desse som que é bem fora da caixa, é bem diferente do que eu imaginava’.”
Vocês já tocaram em palcos grandes, pequenos, festivais e casas de shows. Para o Black Pantera existe diferença entre esses lugares ou a energia é a mesma independentemente do tamanho do palco?
“O lance é esse, a energia é a mesma, o frio na barriga é o mesmo, a vontade e a intensidade são os mesmos, seja num palco menor, seja numa casa onde a gente vai estar olho no olho, seja num pub, seja num festival gigantesco, seja num festival gigantesco do outro lado do planeta, a vontade e a energia é a mesma. E se a gente joga essa energia, essa energia joga de volta, aí o show flui melhor ainda. Então acho que é essa sinergia, essa troca que é sincera e a gente se diverte, a gente vive de show, a gente não vive só de palcos gigantescos, de tocar em festivais grandes, a gente se mantém também tocando no underground, olhando o olho das pessoas, indo no interior do Brasil, no interior do Norte, do Nordeste, do Sudeste, do Oiapoque ao Chuí acho que é isso que movimenta a banda e faz a gente trabalhar tanto.”

Depois de tantos discos, shows e experiências, como está o sentimento de vocês agora que Continental finalmente nasceu? Dá aquela sensação de que mais um “filho” está chegando ao mundo?
“Sim, a gente tinha a noção de que esse disco era foda, assim como todos os outros, desde o momento que a gente está na concepção dele, de estar fazendo as músicas, de estar escrevendo, pensando em arranjo, então a gente vai ouvindo as faixas que vão saindo. A gente escreveu 17 faixas pro Continental. Quatro vão ser lançadas posteriormente, durante a turnê, esse material que sobra, que não ia caber num vinil, na minutagem de um vinil, ia exceder e a gente falou, cara, não, vamos com 13 músicas. E as quatro que ficaram não é que são ruins, é porque foi difícil de escolher, de chegar até essas 13. Mas é isso, cara, acho que quando chega esse momento de lançar o disco, de entender como é que ele vai bater nas pessoas, é um sentimento que eu gosto muito, particularmente, de ver a ração das pessoas ouvindo o disco, a surpresa.
A gente queria ter até segurado um pouco mais a info de que ia ter os feats, mas aí eu lembro que a Sandra já falou no jornal, falou para o Mauro Ferreira, que estava participando, e o Mauro Ferreira já soltou a notícia: A Sandra De Sá que ia estar no disco Black Pantera, aí a gente falou, quer saber, vamos começar a divulgar um pouco antes mesmo, e deu super certo, que gerou uma curiosidade, e o disco é incrível, há de convir, não é porque é o disco minha banda, mas eu disco que é incrível mesmo.”
E agora que Continental está na rua, fica uma curiosidade: alguma música que acabou ficando de fora do álbum pode aparecer de surpresa mais pra frente? Ou tudo que vocês tinham para esse disco já foi aproveitado?
“Sim, tem quatro faixas que ficaram de fora, e a gente até pensa em dois FEATS, para duas delas, mais para frente, que eu acho que vai dar certo, que são Feats também gigantescos e acho que vai super agregar. Então a gente está muito feliz, essas faixas, como eu disse, elas não são piores, é porque realmente no continental a gente conseguiu fechar um conceito ali dentro dessas 13 faixas, mas essas quatro que ficaram são tão boas quanto, e com certeza vocês vão ouvir falar delas.”
E quais são os próximos planos do Black Pantera? Vêm novos clipes, festivais e uma turnê para divulgar o álbum?
“É, né, a gente está na turnê do Continental, né, fizemos a abertura no Cine jóia, foi incrível, tocamos o álbum na íntegra e aí vamos para a estrada, né. A gente já fez Barbacena, a gente vai fazer Rock in Rio, aí tem Ceilândia, eu sei que tem várias cidades, aí a agenda está lotada até o final do ano, ainda bem, né? A gente vai para a Colômbia, vai para o Chile, provavelmente para o México, então a gente está vivendo bastante coisa para divulgar esse disco novo.
E é isso, a estrada, é poder pôr esse disco na rua, tocar e entender, né, como que esse setlist vai funcionar. A gente ainda está no terceiro show, né, com Rock in Rio, o terceiro, mas Rock in Rio não conta que é um show muito específico, a gente tem que estar, né, o repertório está todo decidido já, mas a gente vai entender como o Continental vai se portar na rua.”
Ouça Continental abaixo