“Back In Black” não é apenas o álbum mais vendido da história do rock; é um monumento à resiliência. Lançado apenas cinco meses após a trágica morte de Bon Scott, o disco apresentou Brian Johnson ao mundo e projetou o AC/DC ao superestrelato global. No entanto, décadas depois, uma pergunta continua a permanece viva entre os fãs e historiadores da música: Brian Johnson realmente escreveu aquelas letras, ou elas foram o último presente de Bon Scott?
A teoria de que Bon Scott escreveu as letras de “Back In Black” ganha força com o relato de pessoas próximas ao vocalista. Segundo uma das namoradas de Bon na época, Margaret Silver Smith, o músico ligou para ela na noite anterior à sua morte, convidando-a para comemorar em um bar. O motivo? Ele teria acabado de finalizar todas as letras para o novo álbum da banda.
Bon era conhecido por carregar um caderninho para todos os lugares, onde anotava frases, ideias e rimas. Curiosamente, após sua morte, o apartamento de Bon — que estava uma bagunça completa com instrumentos e discos — foi visitado por alguém antes da polícia chegar. O único item que sumiu e nunca mais foi encontrado foi o tal caderninho de composições.
Outro ponto levantado são as referências pessoais escondidas em sucessos como “You Shook Me All Night Long“. Uma mulher identificada como “Holly X” afirma que a música foi escrita em sua homenagem.
Algumas pistas linguísticas reforçam essa tese. A expressão American Tits ou “coxas americanas” (que na verdade refere-se ao mercado que a banda ainda não tinha conquistado totalmente) seria uma estratégia de Bon. Na letra original de Bon, ele se referia a “Green Eyes” (olhos verdes, como os de Holly), que na versão final gravada por Brian virou “Sightless Eyes” (olhos cegos). Ainda a expressão Double Time usada na música seria uma referência direta ao cavalo que Holly possuía na época.
Um dos argumentos mais fortes contra a autoria total de Brian Johnson reside no seu histórico. Antes de entrar para o AC/DC, Brian fazia parte da banda Geordie, onde praticamente não escrevia letras.
É, no mínimo, curioso que um artista que não tinha o hábito de compor tenha conseguido, em menos de cinco meses após a morte de Bon Scott, entregar clássicos absolutos como “Hells Bells“, “Shoot to Thrill” e a faixa-título “Back In Black“. O próprio Brian, em entrevistas posteriores, descreveu o processo de escrita como se “algo o tivesse invadido”, trazendo uma calma estranha enquanto olhava para o papel em branco. Seria inspiração divina ou apenas o uso de esboços deixados pelo seu antecessor?
Um detalhe que muitas vezes passa despercebido é o aspecto financeiro. Se Bon Scott não participou da criação do álbum, por que sua família ainda recebe royalties pelas vendas de “Back In Black“?
Existem registros de que Bon chegou a gravar demos de bateria (seu instrumento original antes do canto) para faixas como “Let Me Put My Love Into You” e “Have a Drink on Me“. Angus Young já admitiu em entrevistas que Bon participou de algumas sessões iniciais. Para muitos, esse pagamento de royalties é um reconhecimento silencioso — ou um acordo jurídico — sobre a propriedade intelectual das letras contidas no disco.
O AC/DC sempre foi uma “empresa familiar” comandada com punhos de ferro por Malcolm Young. A relação com Bon Scott, embora produtiva, era marcada pelo estilo de vida festeiro do vocalista, que contrastava com a seriedade empresarial dos irmãos Young.
Seja por uma questão de direitos autorais ou para garantir que o novo vocalista fosse aceito pelo público como um criador legítimo, a verdade sobre o caderninho de Bon Scott pode nunca vir à tona de forma oficial. No entanto, para quem ouve atentamente as metáforas e o estilo das letras de “Back In Black“, é difícil não sentir a presença do velho Bon em cada estrofe.



