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O desprezo do Cream por Led Zeppelin e Rolling Stones

Luis Fernando Brod
Luis Fernando Brod
10 de julho de 2026 5 min de leitura
Cream. Crédito: Reprodução/Roz Kelly/Getty Images
Foto: Divulgação

Havia uma arrogância que corria solta no rock dos anos 1960. John Lennon tinha a sua, Jimi Hendrix construiu a carreira em cima da dela, mas nenhuma banda personificou a autoconfiança desenfreada com tanta precisão quanto o Cream. Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker não eram apenas músicos excepcionais — eles sabiam disso, e faziam questão que todos os outros também soubessem.

Formado em 1966, o Cream foi o primeiro supergrupo de rock de verdade. Clapton vinha do Yardbirds e do Bluesbreakers, carregando o título de melhor guitarrista da Grã-Bretanha. Baker e Bruce já haviam tocado juntos na Graham Bond Organisation, e o baterista foi o mentor do projeto ao lado de Clapton. Havia apenas um problema: Clapton queria Jack Bruce no baixo, e Baker odiava Jack Bruce. A rivalidade entre os dois era tão intensa que gerou brigas físicas e se arrastou até o fim da vida de Bruce. Diz a lenda que, em seu leito de morte, Bruce telefonou para Baker apenas para mandá-lo para um lugar nada agradável, desligou o telefone e morreu sem resolver a briga de longa data.

Era um absurdo que uma seção rítmica que se odiava tanto conseguisse soar tão coesa no palco. Mas o Cream era exatamente isso: três músicos tentando superar uns aos outros a cada apresentação, transformando o rock em um veículo para virtuosismo instrumental. Eram donos de uma abordagem sombria, que bebia do blues e do jazz, e que os fazia acreditar que eram superiores a todos os contemporâneos.

Jack Bruce nunca escondeu esse desprezo. Em entrevista à Forbes, ele lembrou como o Cream via o Led Zeppelin e os Rolling Stones: “Lembro-me do Jimmy Page como músico de estúdio. É por isso que nunca levei o Led Zeppelin a sério. Eles eram um bando de músicos de estúdio que nós meio que menosprezávamos. Desprezávamos todo mundo. Desprezávamos Mick Jagger e Keith Richards no início, quando eles vinham tentar tocar com a gente. Mandávamos eles se danarem: ‘Vão embora, aprendam a tocar e depois voltem’.”

A visão de Bruce era clara: enquanto os Stones e o Zeppelin seguiam uma linha Chuck Berry de rock mais acessível, o Cream buscava algo mais sombrio, mais sujo, mais próximo do jazz. Um caminho que, aos olhos deles, exigia um nível técnico que os outros não tinham. Em retrospecto, o baixista admite que era uma postura “estúpida e arrogante”, mas reconhece que era parte indissociável do que tornava a banda tão poderosa.

O Cream durou apenas dois anos, tempo suficiente para gravar quatro álbuns e se dissolver sob o peso de seus próprios egos. A ironia é que, assim que saíram de cena, o Led Zeppelin ocupou o espaço deixado por eles e levou o rock a territórios ainda mais ousados. Como Ozymandias, a arrogância do Cream foi sua força criativa e sua ruína. Eles foram, talvez, a maior banda de sua época. Mas o tempo, como sempre, tratou de colocar cada um em seu devido lugar.

(Via: Far Out)

Leia mais: Cream Rock
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