O músico que o próprio Ozzy desprezou
No turbulento cenário do heavy metal dos anos 1980, onde o exagero e a técnica muitas vezes caminhavam lado a lado, o lançamento de “The Ultimate Sin” por Ozzy Osbourne em 1986 representou um momento de redefinição para o príncipe das trevas. Este álbum, o quarto em sua carreira solo pós-Black Sabbath, surgia em uma era de intensa experimentação e sob a sombra de expectativas monumentais, especialmente após a partida precoce do guitarrista Randy Rhoads e a busca por um sucessor à altura.
A faixa de abertura, que também empresta o nome ao álbum, é, sem rodeios, um verdadeiro golpe. “The Ultimate Sin” surge com a força de um hino, anunciando a chegada de uma obra que prometia intensidade. Ela se destaca pela introdução marcante com bateria, um refrão que gruda na mente e um riff de guitarra cativante, tudo amparado por uma linha de baixo que conduz a melodia com destreza.
Junto a “Shot in the Dark”, estas duas canções são frequentemente apontadas como os pontos altos de uma produção que, para alguns ouvintes, pareceu negligenciar o restante do material. A impressão é de que o foco de estúdio se concentrou nessas pérolas, deixando outras faixas com um tratamento menos polido, uma observação comum entre aqueles que acompanham de perto a sonoridade da época.
Curiosamente, “The Ultimate Sin” foi lançada como single, mas o título original do álbum não seria este. A ideia inicial era batizar a obra de “Killer of Giants”, uma canção que apresenta uma atmosfera mais tranquila, quase balançando entre o heavy metal e um rock mais introspectivo. Essa mudança de planos revelou um tensionamento entre a ferocidade esperada e uma veia mais melódica presente no trabalho.
“Killer of Giants”, aliás, surpreende em sua estrutura. Embora comece suave, quase como uma pausa na tempestade roqueira, seu desfecho se transfigura em um peso considerável, entregando uma guinada sonora que desafia a expectativa inicial. É uma canção que, em sua dualidade, reflete as escolhas artísticas que moldavam o disco.
Um detalhe que denota a complexidade da produção e distribuição musical da época, e que se mantém até hoje, reside na canção “Shot in the Dark”. Para os ouvintes mais atentos, especialmente aqueles que comparam as edições em vinil com as versões disponíveis nos serviços de streaming, há uma diferença notável. A versão digital é editada, com sete segundos a menos. Um solo de guitarra, que se repete duas vezes no vinil, é cortado pela metade no streaming, um ajuste técnico cuja razão permanece um mistério para muitos aficionados.
As transições do álbum, em comparação com predecessores como “Blizzard of Ozz” – que exibe uma progressão sonora mais linear –, são singulares. “The Ultimate Sin” começa com a pujança da faixa título, seguida pela aceleração de “Secret Lover” e a manutenção do ritmo em “Never Nnow Why”. Apesar de algumas falhas na produção, o álbum sustenta sua linha, cedendo apenas uma breve queda de intensidade em “Killer of Giants” antes de retomar sua força.
Nem todas as faixas, contudo, desfrutam do mesmo apreço. “Thank God for the Bomb”, por exemplo, costuma dividir opiniões. Sua sonoridade, por vezes, lembra o rock nacional dos anos 1980, mas seu riff inicial traz um eco quase inequívoco de van halen, remetendo a “I’m Talkin’ ‘bout Love”. Este detalhe mostra como a guitarra de Jake E. Lee, assim como a de tantos outros virtuoses daquela década, era influenciada pelo mestre eddie van halen.
Revisitar “The Ultimate Sin” após anos de uma escuta mais voltada para o peso extremo pode revelar novas camadas. O que antes era percebido como menos agressivo, para um ouvinte que amadureceu seu paladar musical, pode soar surpreendentemente belo, mais melódico e até radiofônico. O álbum, apesar de seus percalços na produção, oferece melodias consistentes e refrões bem construídos, com Ozzy Osbourne entregando vocais que se encaixam perfeitamente na atmosfera geral.
O papel de jake e. lee neste disco é fundamental. Três anos após “Bark at the Moon”, ele demonstrava maior integração e liberdade criativa, incorporando ideias que já trazia consigo. Sua técnica era notavelmente refinada e intuitiva. Detalhes em sua execução, como a forma como manipulava as cordas na cabeça da guitarra para criar certos agudos, revelavam um guitarrista de técnica singular, capaz de produzir sons que desafiavam até outros músicos.
A comparação de Jake E. Lee com o saudoso Randy Rhoads é inevitável e, para alguns, ele se iguala ao seu antecessor em certos aspectos. Há quem afirme que a influência de rhoads sobre lee é tamanha que se pode traçar uma linha direta entre suas abordagens. Randy Rhoads, por sua vez, era conhecido por incorporar elementos da música clássica, como em “Diary of a Madman”, onde um tema de Beethoven foi adaptado e transformado em sua própria assinatura.
Jake E. Lee, com suas nuances e velocidade impressionante, criando frases de quatro notas onde se esperava apenas uma, ascendeu a um patamar técnico que o colocou lado a lado com os maiores. Sua saída da banda após “The Ultimate Sin”, assim como a razão por trás de algumas edições nas músicas, permanece um dos mistérios não resolvidos que pontuam a carreira de Ozzy Osbourne, deixando os fãs a especular sobre o que poderia ter sido em um dos capítulos mais fascinantes do hard rock dos anos oitenta.


