O “passo atrás” dos Rolling Stones em meados dos anos 1970
Houve um tempo em que os Rolling Stones pareciam não conseguir errar. Entre “Beggars Banquet” e “Exile on Main Street”, a banda construiu uma sequência de álbuns que os colocou no centro do rock mundial, equilibrando blues, country e a atitude de quem não precisava mais provar nada para ninguém. O problema é que, depois de chegar ao topo, o próximo movimento inevitável é a descida.
“Goats Head Soup” foi o primeiro sinal de que algo havia mudado. Ainda havia faixas memoráveis, como “Heartbreaker” e a balada “Angie”, mas já se percebia um cansaço pairando sobre as sessões. Keith Richards cantando em “Coming Down Again” soava menos como um acerto criativo e mais como o reflexo de uma banda que passara tempo demais na estrada.
Quando “Black and Blue” chegou em 1976, o cenário ficou ainda mais claro. Com apenas sete faixas, o álbum parecia menos um disco coeso e mais um punhado de ideias que mal se sustentavam. “Memory Motel”, por exemplo, tentava recuperar a emoção de “Wild Horses”, mas soava como uma versão pálida do que eles já haviam feito.
Parte do problema era que eles já não tinham mais nada a provar. Haviam conquistado a América, sobrevivido ao caos do final dos anos 1960 e se tornado a maior banda de rock do planeta. Esse tipo de sucesso pode ser ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. A fome que alimentou discos como “Sticky Fingers” desaparece quando você já está no topo da montanha, e essa sensação de conforto acabou se infiltrando na música.
Mick Jagger não escondeu sua insatisfação com o período. Em entrevista à Rolling Stone, ele apontou o dedo para o uso excessivo de drogas, especialmente por parte de Keith Richards: “Todo mundo usava drogas, principalmente o Keith. Então acho que o álbum sofreu um pouco por causa disso tudo. Acho que nos deixamos levar um pouco pela nossa própria popularidade.” Ele ainda acrescentou que a banda não estava mais focada no processo criativo e enfrentava sérios problemas financeiros.
Isso não significa que os álbuns desse período sejam desprovidos de valor. Pelo contrário, ouvir a banda se esforçando para encontrar novas direções no estúdio permite enxergar Jagger e Richards menos como deuses do rock e mais como seres humanos moldando canções na tentativa de manter a relevância.
E no fim, a chama nunca se apagou de vez. Quando alguns pensaram que os Stones haviam se perdido na pista de dança com “Miss You”, foi exatamente ali que parte da energia criativa retornou. “Some Girls” não era apenas um acerto comercial: faixas como “Respectable” e “Shattered” mostravam que a banda ainda sabia fazer rock com a agressividade de antes.
Há um paralelo interessante entre essa fase dos Stones e os primeiros trabalhos solo de Paul McCartney. Em ambos os casos, as músicas muitas vezes soavam como fragmentos esticados até a duração de uma canção, mas, de vez em quando, surgia uma joia rara que mantinha tudo em equilíbrio. No fim das contas, esse período de meados dos anos 1970 talvez seja mais humano do que qualquer outro na carreira da banda. Ver Jagger e Richards tropeçando, lidando com o peso do próprio sucesso e tentando encontrar um novo caminho, revela algo que discos perfeitos raramente mostram: o custo de chegar ao topo e a dificuldade de se manter lá.
(Via: Far Out)


