Resenha | Maglore – “Fluxo Natural”
A Maglore chegou a Fluxo Natural, lançado em 14 de agosto, em um momento de maturidade. Depois de quase duas décadas de carreira, a banda baiana parece menos interessada em buscar uma nova identidade do que em reunir, com naturalidade, tudo aquilo que aprendeu pelo caminho.
Desde Veroz (2011), o grupo passou por diferentes momentos. O indie rock dos primeiros anos foi gradualmente incorporando elementos de MPB, folk, psicodelia e pop. Discos como III, Todas as Bandeiras e V já mostravam essa transformação. Em Fluxo Natural, porém, essas referências parecem finalmente conviver sem conflito.
O próprio Teago Oliveira definiu o álbum como um disco de “rock brasileiro”. É uma boa síntese. As guitarras continuam presentes, mas agora dividem espaço com violões, teclados, harmonias mais sofisticadas e melodias que aproximam a banda da tradição da música brasileira.
Lô Borges é a referência mais evidente. “Sonho Real” dialoga diretamente com o compositor mineiro, enquanto “Farol”, “Palestina nos Seus Olhos” e principalmente “Para Lô” aprofundam essa relação. O Clube da Esquina aparece menos como modelo a ser reproduzido e mais como uma maneira de pensar a canção: melodias acessíveis, harmonias elaboradas e arranjos que deixam espaço para a música respirar.
Também é possível perceber aproximações com Djavan, 14 Bis, Mutantes e Clube da Esquina, embora essas sejam leituras a partir da sonoridade do álbum, e não necessariamente influências declaradas pela banda para este trabalho. Djavan está na elasticidade melódica; o 14 Bis, na combinação entre rock e música brasileira; os Mutantes, na liberdade de misturar linguagens. E o indie rock continua sendo parte importante do DNA da Maglore.
A diferença é que agora nada disso parece disputar espaço.
Há também uma ligação interessante com Canções do Velho Mundo, álbum solo de Teago lançado em 2025. O trabalho individual explorou uma sonoridade mais artesanal, próxima da MPB, do folk e do soft rock dos anos 1970, além de um processo de composição e gravação mais íntimo. Teago chegou a dizer que algumas daquelas músicas poderiam ter sido gravadas pela Maglore.
Fluxo Natural não é uma continuação daquele disco, mas parece carregar parte daquela experiência. O novo álbum foi gravado no Estúdio Kapa, montado na casa de Teago, e apresenta uma banda mais preocupada com dinâmica, textura e espaço do que com excesso de produção.
É aí que está uma das principais mudanças da Maglore. A banda que começou buscando seu lugar no indie brasileiro agora parece confortável em não escolher um único território.
“Sonho Real”, “Raio de Sol” e “Caravelas” estão entre os momentos que melhor representam essa fase. São canções diferentes entre si, mas conectadas pela mesma preocupação com melodia e pela combinação entre referências brasileiras e uma linguagem contemporânea.
A recepção inicial tem destacado justamente essa aproximação com a música brasileira, especialmente a presença de Lô Borges. Ainda é cedo para falar em avaliação definitiva, mas o álbum já chega cercado de atenção por apresentar uma Maglore mais segura de sua identidade.
Fluxo Natural não representa uma ruptura na carreira da banda. É quase o contrário: o disco funciona porque reconhece o caminho percorrido. O indie rock, a MPB, o Clube da Esquina, o rock brasileiro e a psicodelia deixam de ser referências separadas e passam a fazer parte da mesma linguagem.
Depois de tantos anos, a Maglore parece ter encontrado uma resposta simples para a velha questão sobre qual direção seguir: continuar em movimento, mas sem deixar de reconhecer de onde veio.


