Amor Amarillo: a beleza discreta de um disco que cresce com o tempo

Luis Fernando Brod
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Luis Fernando Brod
Publicitário, redator e pesquisador musical com foco em classic rock, hard rock e bastidores da indústria fonográfica. Especialista com mais de 5 anos em resgatar a...
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Amor Amarillo Gustavo Ceratti

Quando Amor Amarillo chegou em 1993, o nome de Gustavo Cerati ainda estava profundamente ligado ao Soda Stereo. A banda atravessava um momento de grande projeção na América Latina após discos como Canción Animal, e, mesmo sem uma ruptura declarada, já havia no ar uma sensação de mudança — artística e pessoal. Amor Amarillo surge justamente nesse intervalo: um território de transição entre o coletivo e o individual, entre a exposição e o recolhimento.

E aqui cabe uma confissão: nunca fui um profundo conhecedor da obra de Cerati. Mas, nos últimos tempos, isso começou a mudar. Muito por conta de uma provocação do meu amigo Marcelo Scherer, que comentou recentemente sobre estar ouvindo Bocanada (1999), outro trabalho importante dessa fase solo. A partir disso, acabei chegando em Amor Amarillo. E foi imediato — uma identificação quase instintiva.

Tudo começa pela capa. O amarelo que domina a imagem está longe de ser vibrante ou chamativo. É um tom quente, suave, difuso — algo que remete à luz natural, como o sol atravessando uma cortina ou refletido em uma parede clara. Há uma sensação de calor silencioso ali, que antecipa o que vem pela frente. A imagem não tenta impressionar; ela convida. E essa escolha estética dialoga diretamente com o espírito do disco: um trabalho introspectivo, quase doméstico, onde as emoções aparecem sem excesso, sem necessidade de afirmação.

Gravado em Santiago do Chile, onde Cerati vivia com Cecilia Amenábar, o disco carrega essa atmosfera íntima do começo ao fim. É um trabalho que se afasta deliberadamente da escala dos grandes estúdios e da lógica de banda. Aqui, tudo soa mais próximo, mais controlado, como se cada detalhe tivesse sido pensado dentro de um espaço privado. Cerati parece interessado em experimentar sem pressa, sem a pressão de representar algo maior do que ele mesmo.

O resultado é um disco que não tenta competir com o passado, mas que prefere abrir caminhos próprios.

Essa inquietação, na verdade, já vinha dando sinais antes. Em Dynamo (1992), o Soda Stereo havia mergulhado em sonoridades mais etéreas, dialogando com o que bandas como My Bloody Valentine e The Jesus and Mary Chain vinham explorando. Mas ali ainda existia a dinâmica de grupo. Em Amor Amarillo, essa busca se torna mais fragmentada e pessoal. Menos sobre acompanhar tendências, mais sobre capturar sensações.

Há também um elemento biográfico que atravessa o disco de forma sutil: a dedicação ao seu filho recém-nascido, Benito Cerati. Isso ajuda a entender o clima contemplativo que permeia as faixas. Não é um álbum sobre paternidade no sentido direto, mas existe ali uma sensação constante de começo, de reorganização emocional, de um novo olhar sobre o mundo.

Essa mudança também aparece na forma como o som é construído. Amor Amarillo é um disco de camadas. Guitarras, samplers e programações se entrelaçam de maneira delicada, criando uma atmosfera que não se impõe — ela envolve. As guitarras, por exemplo, deixam de ocupar o centro com riffs marcantes e passam a funcionar como textura, com delays longos e reverbs que expandem o espaço das músicas.

Os sintetizadores entram quase como pinceladas, adicionando cor sem roubar a cena. Em alguns momentos, há uma aproximação com a eletrônica mais introspectiva, algo que pode lembrar o trabalho de Brian Eno em sua fase mais atmosférica. Já a bateria, muitas vezes programada, contribui para essa sensação de suspensão — como se o tempo não estivesse completamente fixo.

É um disco que entende o valor do espaço. Os intervalos, os respiros, o silêncio entre os sons — tudo isso faz parte da construção.

Mesmo sendo um artista difícil de rotular, dá para perceber em Amor Amarillo alguns ecos do que circulava na escuta de Cerati naquele período. Além do shoegaze britânico, há uma afinidade com o pop mais introspectivo e experimental de Talk Talk em sua fase final. Também aparecem traços do rock experimental e da eletrônica dos anos 90, mas tudo filtrado de forma muito pessoal.

Ao mesmo tempo, a base melódica mantém um vínculo com a tradição latino-americana. Isso impede que o disco se torne excessivamente abstrato — há sempre um fio emocional que conecta o ouvinte.

As músicas seguem essa mesma lógica. Elas não chegam tentando conquistar de imediato; preferem se revelar aos poucos, como um convite à escuta contínua. Não há picos evidentes ou refrães pensados para impacto rápido. Em vez disso, o disco flui, como um organismo vivo, valorizando mais a atmosfera do que o efeito.

“Te llevo para que me lleves” abre esse percurso com uma sensação de deslocamento — uma viagem que é tanto externa quanto interna. “Lisa” e “A merced” aprofundam esse mergulho, com arranjos delicados e interpretações contidas. Já a faixa-título funciona como um centro sensorial do álbum, traduzindo o afeto em textura, em cor, em clima.

Em “Bajan”, releitura de Luis Alberto Spinetta, Cerati estabelece uma conexão direta com suas referências. Mais do que uma homenagem, é uma forma de se posicionar dentro dessa tradição, sem perder a própria identidade.

A faixa-título abre o disco em andamento cadenciado, com um riff marcante que sustenta a estrutura e apresenta o clima do álbum, além de trazer Gustavo Cerati explorando falsetes de forma incomum em sua obra. “Pulsar” aposta em batidas construídas a partir de samples, com efeito hipnótico e orgânico, enquanto “Cabeza de Medusa” se apoia em guitarras mais marcadas e uma linha de baixo precisa. Em ambas, aparecem texturas de sintetizadores que remetem às parcerias com Daniel Melero, mais evidentes em “Pulsar”.

“Av. Alcorta” se destaca como um dos melhores cortes menos óbvios do disco, com guitarras dissonantes e efeitos vocais sutis que reforçam a ideia de deslocamento presente na letra — uma referência direta à Avenida Figueroa Alcorta, em Buenos Aires, e à região de Providencia, em Santiago, onde Gustavo Cerati vivia com Cecilia Amenábar. “Ahora Es Nunca” segue por um caminho mais direto, com teclados em evidência e linhas de baixo simples e bem definidas. Já “Torteval”, faixa dançante e quase instrumental presente em algumas edições, fecha o disco com o baixo em primeiro plano e uma pulsação constante.

No fim das contas, Amor Amarillo é um disco que fala mais por sugestão do que por afirmação. Ele gira em torno da ideia de deslocamento — sair de um lugar conhecido para explorar novas possibilidades. Cerati está fora de Buenos Aires, fora do Soda, fora das expectativas. E é justamente nesse espaço que ele encontra liberdade.

Ao mesmo tempo, é um trabalho profundamente afetivo. Não pela via da confissão explícita, mas pela maneira como constrói suas atmosferas. Aqui, sentir importa mais do que explicar.

O próprio título aponta nessa direção. Esse “amor amarelo” não é algo fechado ou definido. É uma sensação — uma cor emocional que muda conforme a luz, conforme o momento.

Dentro da trajetória de Gustavo Cerati, o disco ocupa um lugar singular. Ele registra um momento de descoberta. Um artista experimentando sem a obrigação de chegar a um resultado definitivo.

E talvez seja por isso que ele funcione tão bem até hoje. Porque, mais do que um ponto de chegada, Amor Amarillo é um instante capturado — o exato momento em que tudo começa a mudar.

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