David Bowie: os 10 anos de “Blackstar”

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Em 2004, durante a turnê de seu álbum Reality, de 2003, David Bowie sentiu um desconforto no peito enquanto se apresentava na Alemanha. O artista achou que era um mero nervo incomodando em seu ombro, mas exames mais específicos no hospital revelaram que ele havia sofrido um ataque do coração e estava com a artéria coronária bastante entupida, o que levou a uma angioplastia de emergência e, por consequência, o cancelamento de seus shows restantes.

Daí para frente, o músico se afastou de atividades envolvendo música ou artes no geral, com exceção de aparições e participações em apresentações de outros artistas ou mesmo em filmes (vide O Grande Truque, de 2006, dirigido por Christopher Nolan). Esse hiato se encerrou quando fez seu retorno artístico em 2013, com o aclamado The Next Day, ainda que sem turnê para divulgá-lo.

No ano seguinte, passou a fazer alguns experimentos com Jazz ao lado da compositora Maria Schneider, também trabalhando em um musical autoral e escrevendo novas faixas, gravadas de forma caseira em sua casa. Isso o levou lançar Sue (Or in a Season of Crime) ainda em 2014, com Tis a Pity She Was a Whore como seu B-side.

Na mesma época, ele também descobriu estar com um câncer no pâncreas. Não se sabe o quanto esse fator o influenciou em sua decisão de voltar a estúdio, mas o fato é que ele gravou um novo álbum enquanto fazia sessões de quimioterapia. Usando algumas das demos que gravou no ano anterior como base, foi influenciado por To Pimp a Butterfly de Kendrick Lamar e Black Messiah de D’Angelo nas gravações.

Novamente com Tony Visconti como produtor, recrutou como banda músicos de Jazz como Donny McCaslin, Mark Guiliana (que já haviam participado das faixas acima mencionadas), Jason Lindner e Tim Lefebvre, todos tendo que assinar termos de confidencialidade. A ideia era, justamente, fugir do óbvio que o fez conhecido, em um experimento musical, por mais que sua trajetória tenha sido marcada por tantos deles. Manteve sua doença em segredo, exceto de Visconti, que o viu em momento de fragilidade. Ainda assim, relatos dos demais apontam que não havia indícios do que ele vinha enfrentando, estando sempre cheio de vontade e energia.

Apesar das influências e do fundo musical dos contratados, Blackstar é um trabalho de Rock, ainda que não-convencional. Lançado em 8 de janeiro de 2016, há exatos 10 anos, ele se despe de elementos comuns, como guitarras predominantes, e dá espaço a uma instrumentação mais variada e incomum, mas sem abrir mão da estrutura, o que fica evidenciado pelos singles Lazarus, I Can’t Give Everything Away e a faixa-título, além de Girl Likes Me e Dollar Days que, junto às 2 lançadas como single citadas anteriormente, completam a tracklist. Isso, por si só, o fez se aclamado por crítica e público.

2 dias depois, em 10 de janeiro de 2016, David Bowie nos deixou, aos 69 anos de idade. A quimioterapia havia feito o câncer entrar em remissão durante as gravações, porém a doença retornou ao fim de 2015 de forma terminal. Isso fez muita gente revisitar o trabalho com outros olhos, entendendo-o como uma despedida devidamente planejada e buscando sinais e referências que corroborassem com essa hipótese. Os próprios envolvidos apontavam isso a ele em estúdio enquanto ainda gravavam.

O artista achava que ainda teria mais tempo, porém e, segundo relatos, inclusive do próprio Tony Visconti, até tinha planos para uma sequência. Só dá para imaginar como seria, mas Blackstar foi uma despedida mais que adequada, com cara de registro final do início ao fim, ainda que de forma involuntária ou inconsciente.

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