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O riff que Johnny Marr considera o melhor de sua carreira nos Smiths

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The Smiths. Crédito: Reprodução
Foto: The Smiths. Crédito: Reprodução

Se existe uma imagem que define o guitarrista Johnny Marr, é a de um adolescente de Manchester obcecado pelo instrumento, devorando discos, dissecando acordes e sonhando com o estrelato. Aos 12 anos, enquanto seus amigos vibravam com Hendrix, Marr já tinha um herói específico, um nome que poucos associariam à sofisticação melódica dos Smiths: Hamilton Bohannon.

O americano Bohannon era um pioneiro do funk e da disco music, um gênero que muitos roqueiros puristas tratavam com desdém. Mas para o jovem Marr, a pulsação de “Disco Stomp” era magnética. Ele passava horas, dias, imaginando como aquela energia se traduzia em som. O riff da canção rodava em sua cabeça como um disco arranhado, jamais desaparecendo por completo.

Com o tempo, a verdade apareceu. Bohannon não era exatamente a fonte original daquela mágica — ele era um herdeiro de uma linhagem muito mais antiga. Como guitarrista em formação, Marr descobriu que a espinha dorsal de “Disco Stomp” e de tantas outras faixas que amava era, na verdade, a “batida de Bo Diddley”. Aquele ritmo hipnótico, sincopado, que Diddley havia cunhado nos anos 50 e que se espalhara pelo rock e pelo R&B como uma corrente elétrica, mudou tudo para Marr.

Foi um daqueles momentos de iluminação que todo músico conhece: a percepção de que todas as suas referências favoritas estavam conectadas por um fio invisível. E aquele fio levava diretamente a Diddley. Marr não apenas entendeu a mecânica da batida, mas internalizou sua alma. Ela se tornou parte de seu vocabulário, uma ferramenta que descansava adormecida, esperando o momento certo para ser usada.

Esse momento chegou em 1984. Os Smiths estavam entre o lançamento do álbum de estreia e a revolução que seria “Meat is Murder”. Marr havia composto a base do que viria a ser “How Soon Is Now?”, mas algo não se encaixava. A faixa estava sendo gravada tarde da noite, e o guitarrista sentia que a magia do demo original havia se perdido em algum lugar entre o estúdio e a ansiedade.

Foi então que tudo se alinhou. Na solidão da madrugada, com o cansaço dando lugar a uma estranha clareza, toda a sua educação musical — Bohannon, Diddley, o punk, o folk — veio à tona. Ele pegou a progressão de acordes, aplicou o filtro rítmico que havia aprendido décadas atrás e, num golpe de intuição, adicionou um efeito de tremolo simples que distorceu o som de forma hipnótica. Naquele instante, a sala se transformou. O riff estava completo.

“Havia algo naquela noite”, Marr lembrou mais tarde. “Eu não estava gostando do que tínhamos. Não era a mesma vibe do demo. Mas quando coloquei o tremolo, algo aconteceu.” Aquela centelha noturna resultou em um dos sons mais reconhecíveis da história do rock britânico.

A ironia é que “How Soon Is Now?” não foi lançada como single principal. Chegou ao mundo como lado B de “William, It Was Nothing” e depois como single independente, mas algo naquela faixa se recusava a ser relegada a segundo plano. A música cresceu, ganhou as rádios, as pistas de dança e, eventualmente, o coração do público. Marr a descreveu em 2007 como o “registro mais duradouro” da banda, “o favorito da maioria das pessoas”.

O mais curioso, porém, é o que moveu tudo aquilo. Nos momentos mais altos de sua carreira, com os holofotes sobre ele e o legado dos Smiths consolidado, Marr ainda se via como o garoto excêntrico de 12 anos, sentado no carro durante uma viagem em família, enjoado, esperando ansiosamente pelo momento em que ouviria “Everybody do the disco stomp”. Para os fãs que insistem em envolver a banda em um manto de pretensão intelectual, a origem do maior riff de Johnny Marr pode parecer prosaica. Mas é a mais pura verdade.

Marr nunca deixou de ser um geek musical, um obcecado por guitarras cuja maior virtude foi enxergar beleza onde outros viam apenas barulho. E quando aquela obsessão o levou a conectar funk, disco, riffs e o stomp de uma pista de dança dos anos 70, não havia mais volta. A música estava feita, e ela carregava o DNA de tudo que ele sempre amou.

Via: (Far Out)

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