O SEGREDO DO BAIXO ‘DE BORRACHA’ EM ‘STATION TO STATION’ DO BOWIE!
Há álbuns que nos pegam de surpresa, que aguardam o momento certo para revelar suas profundezas. “Station to Station”, de David Bowie, lançado em 1976, é um desses trabalhos, um disco que se mostra com uma clareza renovada a cada nova audição atenta. Sua produção, os timbres escolhidos e a execução dos músicos são elementos que o tornam singular em toda a discografia de Bowie. Uma verdadeira jornada sonora.
A sonoridade rica e multifacetada do álbum repousa sobre os ombros de instrumentistas excepcionais. O baixo de George Murray, por exemplo, é uma força à parte. É descrito como um som gordo, presente, com uma elasticidade quase de borracha, que marca cada nota com precisão sem obscurecer o espaço sonoro.
As guitarras de Carlos Alomar e Earl Slick dialogam de maneira notável. A “swingada” e o bom gosto de seus trabalhos são evidentes, especialmente quando se ouve o disco em fones de ouvido, percebendo a distinção entre os dois canais. Essa colaboração entre Alomar, um veterano de diversas gravações de Bowie, e Slick, que também registrou seu talento em álbuns de Ian Hunter e John Lennon, é um dos pilares do som do disco.
Na bateria, Dennis Davis imprime um estilo minimalista, que remete à elegância de Charlie Watts. Ele faz o que é necessário, com uma economia de movimentos que paradoxalmente eleva a complexidade rítmica das faixas, entregando um timbre marcante e uma base sólida.
O time é completado por Roy Bittan, o tecladista da E Street Band de Bruce Springsteen. Sua presença é sentida de forma proeminente, especialmente na faixa “TVC 15”, onde o piano assume uma posição central, trazendo um calor e uma textura distintas.
“Station to Station” é um álbum curto, com apenas seis faixas, mas cada uma delas é uma entidade poderosa. A faixa-título, com sua duração estendida e estrutura progressiva, é um exemplo claro do experimentalismo que Bowie buscava. Para quem vinha de “Young Americans”, com seu funk e soul, a incursão por terrenos mais densos e repetitivos do art rock poderia soar como um choque, mas era um salto calculado na busca por novos horizontes.
“Stay” é outro destaque, um funk coeso que trazia um aceno aos fãs de “Young Americans”, mostrando que o artista ainda dominava o gênero. Sua versão ao vivo, da época da trilogia de Berlim, é apontada por muitos como ainda mais poderosa, com improvisações de guitarra que a estendem e a aprofundam.
“Golden Years” se apresenta como a canção mais radiofônica do disco, com um apelo melódico que a tornou uma das músicas de Bowie a serem executadas até hoje em rádios com programação mais conceitual. É a prova de que mesmo em seu período mais obscuro, Bowie sabia criar músicas com potencial de alcance.
Já “TVC 15” é uma faixa que, apesar de sua curiosidade e dos elementos do art rock que remetem a artistas como Patti Smith ou Roxy Music, é subestimada. O trabalho de teclado de Roy Bittan é inacreditável, e a faixa caminha entre o experimentalismo e uma acessibilidade que a torna especial, merecendo mais atenção do que geralmente recebe.
O álbum é encerrado com “Wild Is The Wind”, um cover de Ned Washington e Dimitri Tiomkin, popularizado na voz de Nina Simone. A interpretação de Bowie é carregada de uma melancolia sutil, que termina o disco em um tom reflexivo. Sua versão, com o tempo, acabou se tornando uma referência para uma nova geração de ouvintes.
Este trabalho foi criado em um período de grande turbulência pessoal para David Bowie. Em 1997, ele descreveu “Station to Station” à revista Q como um álbum “ótimo, muito bom, mas extremamente sombrio”. Sua desconexão com a realidade durante as gravações era tal que ele o ouvia como a obra de uma pessoa completamente diferente, quase como se estivesse possuído, vivendo à base de leite, cocaína, pimenta e ovos, e passando dias sem dormir.
Essa vivência, marcada por alucinações e um estado psicótico, moldou a atmosfera do disco. O fato de Bowie ter buscado reabilitação após as sessões de gravação sublinha a intensidade daquele momento. A produção, co-dirigida por ele, soube canalizar essa energia, colocando cada elemento na medida certa, criando um disco que é um testemunho de experimentação e de um período complexo na trajetória de um dos maiores artistas da música popular.
Ouvir “Station to Station” é mergulhar não apenas em uma obra de arte sonora, mas também em um capítulo íntimo da vida de David Bowie. É um convite a explorar as tensões e os triunfos de um gênio em constante transformação, que, mesmo à beira do abismo pessoal, conseguiu entregar um álbum de sofisticação e profunda ressonância artística.

