“Another Ticket”, a segunda chance de Eric Clapton

Luis Fernando Brod
8 minutos de leitura
Eric Clapton. Crédito: Reprodução.

Lançado em 20 de fevereiro de 1981, “Another Ticket” chegou às lojas num momento delicado da trajetória de Eric Clapton. Aos 35 anos, o guitarrista que havia atravessado os anos 60 como prodígio do blues britânico e os 70 como estrela global parecia viver um impasse artístico e pessoal. O álbum completa 45 anos como uma das obras mais intrigantes — e frequentemente subestimadas — de sua discografia.

Produzido por Tom Dowd, nome associado a clássicos de artistas como Bee Gees, Lynyrd Skynyrd e Rod Stewart, o disco captura um Clapton em transição. Não é mais o guitarrista inflamado do Cream, tampouco o cantor introspectivo de “Slowhand”. É um músico que parece tentar equilibrar o blues que o formou com o soft rock que dominava as rádios no início dos anos 80.

Mas “Another Ticket” é mais do que um disco de passagem. Ele é o retrato de um artista tentando sobreviver — artística e fisicamente.

O final da década de 70 não foi gentil com Clapton. Depois do sucesso comercial de “Slowhand” (1977), seus álbuns seguintes tiveram recepção morna. “Backless” (1978) e “Just One Night” (1980) mantiveram o público fiel, mas deixaram claro que o guitarrista já não era o centro das atenções como fora na década anterior.

Enquanto isso, o cenário musical mudava rapidamente. A new wave, o pós-punk e o pop sofisticado tomavam as paradas. A MTV estava prestes a nascer. O virtuosismo blues-rock dos anos 70 parecia, para muitos, coisa do passado.

Clapton, por sua vez, enfrentava um problema muito mais grave: o alcoolismo. Seu consumo excessivo afetava gravações, turnês e sua própria saúde. Durante a turnê de “Another Ticket”, ele seria hospitalizado com úlceras hemorrágicas severas — episódio que quase lhe custou a vida.

O título do álbum, nesse sentido, ganha peso simbólico: “Another Ticket” — outra passagem, outra chance.

Originalmente intitulado “Turn Up Down”, o disco foi recusado pela RSO Records. A gravadora considerou o material fraco e, segundo rumores da época, avaliou que havia protagonismo excessivo dos músicos de apoio e pouco destaque para Clapton.

A decisão obrigou o guitarrista e Tom Dowd a voltarem ao estúdio. Parte do material foi retrabalhada, novas faixas surgiram, e o álbum ganhou outra identidade. Esse processo ajuda a explicar a sensação de irregularidade que alguns críticos apontaram na época — mas também contribui para a diversidade sonora do trabalho.

Há uma tensão perceptível entre o blues tradicional, o pop radiofônico e um clima introspectivo que atravessa várias faixas.

O disco abre com “Something Special”, que já sinaliza o clima geral: groove relaxado, guitarra limpa, produção polida. Não há excessos. O Clapton incendiário dos anos 60 dá lugar a um músico econômico, focado na canção.

“I Can’t Stand It” é o grande sucesso do álbum. A faixa alcançou o topo da parada Mainstream Rock Tracks — a primeira vez que Clapton conseguiu tal feito. Com riff marcante e andamento direto, ela equilibra energia e acessibilidade, dialogando com o formato radiofônico da época.

Mas é nas releituras de blues que o coração do trabalho pulsa com mais força. Em “Blow Wind Blow”, Clapton revisita um clássico de Muddy Waters. A abordagem é respeitosa, quase contida. A guitarra mantém peso e fraseado tradicional, mas dentro da estética limpa que Dowd imprimiu ao álbum.

Já “Floating Bridge”, de Sleepy John Estes, reforça o vínculo de Clapton com o blues rural. São momentos que revelam que, apesar das pressões comerciais, o guitarrista não estava disposto a romper com suas raízes.

O que muda é a moldura: menos crueza, mais acabamento.

Este foi o último álbum de estúdio com a banda de turnê que acompanhou Clapton durante boa parte dos anos 70. Logo após o lançamento — em meio ao caos pessoal e aos problemas de saúde — ele dispensou praticamente todo o grupo.

A decisão marca o fim de um ciclo. Pouco depois, já recuperado e sóbrio, Clapton entraria nos anos 80 com outra proposta estética. Discos como “Money and Cigarettes” (1983) e, mais tarde, “Behind the Sun” (1985) trariam sintetizadores, produção mais alinhada ao período e clara tentativa de dialogar com o mercado da década.

Nesse sentido, “Another Ticket” funciona como uma ponte: o último registro de um Clapton ainda orgânico antes da virada tecnológica.

Na época do lançamento, a crítica foi dividida. Alguns consideraram o álbum suave demais, distante da intensidade blues que consagrou o guitarrista. Outros viram nele maturidade e controle.

Comercialmente, o resultado foi sólido: 7º lugar na Billboard 200. Nada desprezível para um artista que enfrentava turbulências internas tão severas.

Hoje, ouvido à distância, o disco soa mais coeso do que sugeriam as resenhas iniciais. Ele não tenta reinventar o blues nem competir com as tendências emergentes. É um trabalho de contenção — talvez até de sobrevivência.

O episódio das úlceras hemorrágicas durante a turnê adiciona uma camada dramática à narrativa. Clapton quase morreu. A recuperação marcaria o início de um processo de reabilitação que redefiniria sua vida pessoal e profissional. Assim, o “bilhete” do título deixa de ser apenas metáfora comercial. Ele passa a simbolizar continuidade.

Se os anos 60 representaram afirmação e os 70 consolidaram fama e excessos, “Another Ticket” documenta o momento em que Clapton percebe que precisa mudar para continuar existindo.

Há álbuns que impressionam pela ousadia. Outros, pela ruptura estética. “Another Ticket” não faz nenhuma das duas coisas. Seu valor está na fotografia que oferece de um artista no limite.

A guitarra é limpa, precisa, sem exibicionismo. O canto é seguro, ainda que menos intenso do que em registros anteriores. A produção é elegante, sem exageros. Não é o trabalho mais celebrado de Eric Clapton — mas talvez seja um dos mais humanos.

Porque, no fim das contas, “Another Ticket” soa como aquilo que ele realmente era naquele início de década: um músico tentando se manter à tona enquanto o mundo ao redor mudava — e enquanto seu próprio corpo cobrava a conta.

E, às vezes, sobreviver já é um gesto artístico.

LEIA MAIS:
Compartilhar esse artigo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *