Camisa de Vênus 45 Anos: Quando o Rock Rasgado Ainda Lateja nas Veias do Brasil

Cássio Toledo
4 minutos de leitura
Camisa de Vênus. Foto: Giovani "John" Maglia.

A noite de 1º de agosto de 2025 entrou para a história de Porto Alegre como uma verdadeira celebração do legado de uma das bandas mais transgressoras e icônicas do rock nacional: Camisa de Vênus. Mais do que um show, foi uma devolução simbólica — de uma cidade que abraçou o grupo antes mesmo do resto do Brasil.

Nos anos 80, foi a lendária Rádio Ipanema FM — pioneira na programação alternativa no sul do país — a primeira emissora a tocar as músicas do Camisa, abrindo espaço para um som cru, irônico e politicamente incorreto, numa época em que a censura ainda rondava os estúdios. E foi justamente Porto Alegre a primeira cidade fora do eixo Rio-São Paulo a receber a banda ao vivo, num Araújo Vianna ainda sem cobertura, sob chuva e trovões, mas com o espírito incendiário que sempre acompanhou o grupo.

Poucos meses depois, o Camisa voltaria à capital gaúcha e escreveria outro capítulo histórico no Ginásio Gigantinho: um show tão lotado que, segundo relatos da época, havia “gente sendo cuspida pela janela”. O público ultrapassou os números do então imbatível Roberto Carlos, quebrando recordes e consolidando a banda como fenômeno popular.

Enquanto parte da imprensa ainda se mostra reticente em reconhecer o verdadeiro impacto cultural e musical do grupo — muitas vezes reduzindo sua trajetória à ideia rasa de que “soam mais do mesmo” — o Camisa segue firme, íntegro e atual. Não bastasse isso, Marcelo Nova carrega também em seu legado um dos gestos mais significativos da história do rock nacional: o resgate, em vida, de Raul Seixas, com quem gravou o clássico álbum A Panela do Diabo em 1989, pouco antes da morte do Maluco Beleza.

Quarenta e cinco anos depois, o Camisa de Vênus resiste com a mesma fúria e autenticidade. A atual formação — com o vocalista Marcelo Nova (líder e voz inconfundível), o parceiro de longa data Robério Santana no baixo, Drake Nova e Leandro Dalle nas guitarras, e Célio Glouster na bateria — segue firme e criativa. Os últimos lançamentos, como os álbuns Dançando na Lua (2016) e Agulha no Palheiro (2021), mostram uma banda que não se limita à nostalgia, mas que ainda provoca, denuncia e renova sua proposta estética.

O registro ao vivo Dançando em Porto Alegre (lançado em CD e DVD), gravado na mesma cidade que os acolheu no início, reafirma esse elo simbólico e afetivo com o sul do país. No show recente, a banda revisitou clássicos que moldaram o rock nacional nos anos 80, como “Só o Fim” (do histórico Correndo o Risco, 1986), além de apresentar faixas mais recentes e de forte carga política, como a contundente “Dogmas Tecnofascistas”, originalmente lançada no álbum de estreia em 1983, e que abriu o espetáculo com impacto.

A canção “Bete Morreu”, um retrato cru da violência contra a mulher, também integrou o setlist, lembrando que o Camisa nunca teve medo de tocar em feridas abertas da sociedade — algo raro num país que muitas vezes silencia diante do incômodo.

Como canta Marcelo Nova em sua sólida carreira solo, na faixa “O Sonho”, no álbum “O Galope do Tempo”

“Sinto raiva do tempo, mas adoro esse vento que ele insiste em soprar.”

E é esse vento, impiedoso e necessário, que continua soprando nos caminhos do Camisa de Vênus. Uma banda que nunca quis agradar a todos, mas que, com autenticidade e coragem, escreveu — e segue escrevendo — seu nome na história da música.

Créditos: Giovani “John” Maglia @gmaglia sob sua autorização.

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